terça-feira, 16 de dezembro de 2008

NOTAS SOBRE EDGAR ALLAN POE NO CINEMA, VI

"THE MANSION OF MADNESS"
Em 1844, Edgar Allan Poe escreveu “The System of Dr. Tarr and Professor Fether” (Feather)”, um conto inicialmente aparecido no nº 5 do vol. XXVIII, da revista “ Graham’s Magazine” (de Novembro), e posteriormente integrado no volume de “Histórias Grotescas e Sérias”. Trata-se de uma obra particularmente interessante, parodiando algumas teorias em voga na altura sobre o tratamento da loucura. O conto, escrito na primeira pessoa do singular por um narrador que visita um castelo isolado, situado numa das províncias do extremo sul de França, onde encontra um estranho Dr. M. Maillard que aí dirige um manicómio, aborda de forma parabólica e algo satírica, a teoria da cura em liberdade, o “sistema da doçura”, no qual os pacientes não são contrariados nas suas alucinações e fantasias, mas antes impulsionados a satisfazer os seus instintos, procurando “curá-los” pelo absurdo. Se alguém pensa ser um galo, pois que se alimente de milho e farináceos, e logo perderá a loucura. O sistema parece, no entanto, não funcionar muito bem, apesar da áurea ganha nos meios científicos, na explicação de Maillard, que leva o visitante a percorrer as instalações da instituição, onde aparecem estranhas personagens, que se reúnem num jantar pantagruélico. É nessa altura que o narrador percebe que, durante a vigência do “sistema da doçura”, os internados se tinham revoltado, encarcerado médicos e enfermeiros e tomado conta do castelo que agora administravam com “um grão de loucura”.
Este conto está na base de um filme mexicano muito curioso, datado de 1973, que se passa em França (como no original de Poe), mas que foi rodado no México, falado em inglês, dirigido por um mítico Juan López Moctezuma e que conheceu vários títulos: “The Mansion of Madness”, “Dr. Goudron's System”, “Dr. Tarr's Pit of Horrors”, “Dr. Tarr's Torture Dungeon”, “Edgar Allan Poe: Dr. Tarr's Torture Dungeon”, “House of Madness”, “La Mansión de la Locura” ou “The System of Dr. Tarr and Professor Feather”.
Juan López Moctezuma é herdeiro de uma tradição mexicana de filmes de terror, que teve na presença de Luís Buñuel neste país uma forte motivação para uma inspiração surrealista e anti clerical. Moctezuma foi colaborador de Alejandro Jodorowsky, conheceu Fernando Arrabal e pode dizer-se que fez parte de um grupo que nos anos 60-70 se intitulou “Panic”, onde militava ainda Roland Topor. O “Movimento Pânico” tinha como musa a deusa Pã e uma forte influência de Buñuel e dos surrealistas franceses, bem assim como do teatro da crueldade de Antonin Artaud. A proposta era anárquica, surreal, caótica, libertina, fantástica, grotesca, libertadora… Durou mais ou menos até 1973.
Compreende-se assim a aproximação de Juan López Moctezuma da obra de Poe, particularmente do conto em questão, onde se defendem teses libertárias em relação à psiquiatria e à loucura. Aliás, parece que o próprio Poe se inspirou nos trabalhos de Philippe Pinel (1745-1826), o pai da psiquiatria francesa, que iniciou sistemas de cura benigna, libertando os doentes das grilhetas e exigindo a sua separação dos presos de delito comum e das prostitutas, no manicómio de Salpêtrière. Também William Tuke, em Inglaterra, e Dorethea Dix, nos EUA, iniciaram, no fim do século XVIII, princípios do XIX, idênticas lutas a favor de uma maior humanidade do tratamento das doenças mentais. Edgar Allan Poe mais não faz do que adaptar a conto as teorias que circulava no seu tempo. Juan López Moctezuma, por seu turno, fará o mesmo, adaptando esse conto ao cinema, ainda que com profundas alterações. Enquanto no conto, o manicómio é um espaço fechado, limpo e quase sofisticado, em Moctezuma os loucos fazem esperas a visitantes, vestidos de soldados e armados, evoluem livremente pela floresta circundante, e habitam um palácio em ruínas, completamente deteriorado e escalavrado (grande parte do filme foi rodado numa fábrica de têxteis há muito abandonada).
Em ambos os casos, porém, o que se condena é anarquia e o caos a que conduz uma liberdade mal entendida, moralidade que se ilustra através de certas situações de crítica satírica e de momentos de cruel paródia, dados de forma subtil. Aliás existe como que uma dualidade de olhar, ora crítico, ora complacente para com a loucura instala, o que poderá igualmente ter uma segunda leitura, fazendo equivaler, aos olhos do público, loucos e sãos de espíritos, sem que se saiba muito bem onde começam uns e acabam os outros. O que contem igualmente alguma crítica: muitas vezes são os loucos que ocupam os lugares dos ditos sãos de mentes, sem que nada aparentemente o faça notar.
Primeira experiência cinematográfica de Juan López Moctezuma, “The Mansion of Madness” não é uma obra-prima, mas mostra-se uma surpresa muito curiosa e um filme de indiscutível interesse, quer como aproximação de um tema querido do fantástico, quer como estilo de narrativa, que oscila entre o terror gótico e o humor de uns Monty Python, o exacerbamento visual de um Federico Fellini ou de um “Marat-Sade”, de Peter Brook. Há uma tendência para uma representação teatral que faz lembrar processos do “The Livig Theatre” e, simultaneamente, uma enorme cinefilia que não hesita em repescar réplicas de vários clássicos.
O filme é plasticamente muito curioso, acompanhando-se com prazer, muito embora não seja uma produção de orçamento elevado. Mas o bom gosto de cenários e guarda-roupa e a intencionalidade da narrativa remetem esta obra para o nível dos filmes não muito conhecidos do grande público, mas que merecem seguramente figurar na lista “de culto” de muitos aficionados do fantástico. Poe deveria gostar desta obra e sentir com ela alguma cumplicidade.
Anos depois, o checo Jan Svankmajer, partindo deste mesmo conto de Edgar Alan Poe (e também de “O Sepultado Vivo”) dirige “Lunacy”, “um filme de terror filosófico”, nas palavras do seu autor. “Uma fantasia transgressora que combina imagem real e animação. Nesta delirante alegoria à sociedade contemporânea encontramos o jovem Jean Berlot, um rapaz assombrado por terríveis pesadelos. Berlot trava conhecimento com Marquiz (inspirado no divino Marquês de Sade), um aristocrata com um glorioso apetite por blasfémias e orgias, e inicia uma odisseia “terapêutica”. Como temas centrais a liberdade, a manipulação e a repressão exercidas pela civilização.” O filme passou numa das edições do Indie Lisboa, de onde se retiram os dados.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

NOAS SOBRE EDGAR ALLAN POE NO CINEMA, V

AS VÁRIAS VERSÕES
CINEMATOGRÁFICAS DE “O CORVO”
Um dos poemas mais célebres de Edgar Allan Poe, senão mesmo o mais conhecido e citado, é “The Raven” (O Corvo), obviamente uma das suas obras igualmente mais adaptadas ao cinema. Sabe-se que, logo em 1912, nos EUA, surgiu uma primeira versão, de que se desconhece autor, mas de que se conhecem os intérpretes (Guy Oliver, como Edgar Allan Põe e Muriel Ostriche), e que se sabe ter sido uma produção Eclair American.
A adaptação seguinte data de 1935, novamente americana, uma produção Universal Pictures, com realização de Lew Landers. Este “The Raven”, com argumento de David Boehm, Florence Enright, Michael L. Simmons, Dore Schary, Guy Endore, Clarence Marks, Jim Tully e John Lynch, tinha um elenco de peso na época. Nada menos que os dois mais famosos “monstros” da altura, Boris Karloff e Bela Lugosi, respectivamente Frankenstein e Drácula dessa década de ouro do fantástico. Lew Landers, nascido em Nova Iorque, mas que inicialmente assinava as suas obras com o nome de baptizado, Louis Friedlander, foi um dos realizadores mais prolíferos do cinema norte-americano. “The Raven”, do início da sua carreira, será mesmo das suas obras de maior qualidade, mantendo, tal como muitas outras desses anos, uma larga dependência do cinema expressionista alemão da década precedente.
Tal como muitas outras adaptações de obras de Poe, este “The Raven” contenta-se em manter o título, algumas obsessões temáticas e um clima que se poderá dizer ter origem no belíssimo poema. Bela Lugosi interpreta a figura de um estranho doutor Richard Vollin, grande admirador de Poe que, nas horas livres da sua actividade de médico, se entretém a reconstituir, na cava da sua casa, uma verdadeira câmara de torturas, fabricando ele próprio cada um dos instrumentos de suplício imaginados por Edgar Allan Poe. Depois a história vai evoluindo em função de um crescendo de terror que conduzirá as vítimas a esse território de horror, encimado pelo célebre pêndulo da morte, mas onde não deixa de ter lugar igualmente uma câmara que se fecha sobre si própria, após o que as paredes começam a movimentarem-se no sentido de esmagar quem esteja aprisionado no seu interior.
Para introduzir um elemento romântico indispensável ao conforto das plateias, Friedlander inventa um paixão louca de Vollin por uma jovem que ele salva da morte, depois de um aparatoso acidente de automóvel, com que abre o filme, e que hipnotiza por forma a roubá-la ao seu noivo. A frágil figura da mulher perante as arremetidas brutais do sábio louco, eis as premissas habituais ao género. Há outras referências ao poema de Poe: a jovem que recupera inteiramente do acidente é bailarina e interpreta no teatro uma adaptação de “The Raven”. Vollin fica defenitivamente apaixonado pela mulher e pela sua interpretação, o que agudiza as situações e irá conduzir ao grande clímax.
Entretanto, pelas ruas da cidade, Edmond Bateman (Boris Karloff, aqui com um papel secundário, muito curioso, nitidamente subsidiário do seu “Frankenstein”), um conhecido e temido criminoso, esconde-se e bate à porta de Vollin, procurando que este o transforme, através de uma operação de plástica estética, numa noutra pessoa, e assim passar desapercebido. Mas o resultado não é o melhor. E tudo se conjuga para um final em crescendo, na tenebrosa câmara de horrores que o médico criou. O filme consegue, com simplicidade e eficácia, na sua modéstia de orçamento, criar um bom clima de inquietação e sedução, com planos bem delineados, enquadramentos desassossegados, iluminações perturbantes e personagens de algum sadismo, sabiamente aproveitadas. O corvo impera ao longo da obra, como presença obsidiante.
Posteriormente houve muitas outras versões, que desconhecemos (quase todas) por completo. Um episodio da série televisiva espanhola, “Historias para no dormir", precisamente chamada “El Cuervo” (1967), com realização de Narciso Ibáñez Serrador, com Rafael Navarro na figura de Edgar Allan Põe; uma adaptação alemã, “Der Wilde Rabe”, de Peter Sempel (RFA, 1985); um episódio, “Treehouse of Horror”, da série de TV, "The Simpsons", com direcção de David Silverman; uma nova incursão espanhola, desta feita com a assinatura de Tinieblas González; uma curta-metragem com o título “The Raven... Nevermore” ou “El Cuervo” e Gary Piquer na personagem de Edgar Allan Põe; finalmente duas novas cinematizações americanas, uma nova curta-metragem, desta feita com a assinatura de Peter Bradley (EUA, 2003), e uma longa de 2006, dirigida por Ulli Lommel, que escreveu também o argumento, e entregou a interpretação a Jillian Swanson (Lenore), Victoria Ullmann (Annabel Lee), e Michael Barbour (Edgar Allen Poe). Ulli Lommel é conhecido sobretudo por ter assinado “The Boogeyman”, um filme de terror de culto entre os fanáticos do género, sobretudo os que apreciam obras de pequeno orçamento, alguma imaginação e violência a preceito. Este “O Corvo” é, de certa forma, uma desilusão, ainda que mantenha algumas dessas características: o orçamento deverá ter sido mínimo, os actores são de terceira escolha (se é que houve escolha!), os cenários são minimalistas, a estrutura deficiente, mas bastante pretensiosa, o resultado não deixa lugar a muitas dúvidas.
Como se sabe, o poema de Poe fala da fatal tristeza de alguém que chora uma Lenora que partiu, e de um corvo que aparece, vindo da escuridão da noite, trazendo a mensagem de um “Nunca Mais”, ou seja da inexorabilidade da morte e da solidão que ela deixa nos que ficam chorosos de saudade. Partindo desta premissa, aberta a todas as interpretações, tudo é possível, desde que apareçam dois ou três símbolos carismáticos: o corvo, o nome de Lenora, a morte.
No filme de Ulli Lommel, Lenora em criança ouve o avô ler poemas de Edgar Allan Põe, o que lhe provoca pesadelos de terror. Mais tarde, encontramo-la, em Los Angeles, vocalista de uma banda, e perseguida por um assassino que vai dizimando todos os amigos à sua volta até chegar ao confronto final com a própria Lenora. Rara a excitação e a inquietação provocada por esta série B que procura elidir a falta de ideias com uma montagem modernaça, obcecada por postes e linhas de cabos eléctricos (o que tem a sua justificação, no argumento). Nada de muito extraordinário, portanto.
Já no século XXI, também na Argentina, em 2007, surgiu “El Cuervo”, uma média metragem de 30 minutos, dirigida por Richie Ercolalo. No meio destas versões todas tivemos “Der Rosenkönig” ou “Le Roi des Roses” (O Rei das Rosas), do alemão Werner Schroeter (RFA, França, Portugal, 1986). Filme estranho e invulgar é este, obra romântica e demencial, construída em forma de poema, sem obedecer a qualquer tipo de narrativa clássica, sem uma intriga exposta de forma linear. Werner Schroeter, um dos chefes de fila do novo cinema alemão surgido nos anos 60-70, procura sobretudo um encadeado de imagens, personagens, situações, sons, vozes (em diferentes idiomas), músicas (de origem variada, do ópera às ladainhas populares), luzes, que restituam um clima, uma ambiência fantástica, onírica. Neste aspecto, esta é uma das obras onde se sente mais a proximidade de Edgar Allan Poe, e do seu poema “The Raven”, de que se ouvem, lidos, alguns dos seus versos, bem assim como excertos de “City in the Sea” ou “Alone”, do mesmo autor, poesias de Pablo Neruda, fragmentos de “Chants de la Vie”, de Abou Kassem Ech’ Chabbi, um pedaço de uma peça de rádio, "série negra", de 1943, dita por Gloria Swanson, além de vozes dos padres católicos napolitanos e de alguns contos populares portugueses.
O filme parece ter sido escrito dia a dia ao longo das filmagens, num improviso constante ou numa “rêverie” continua, tanto por Werner Schroeter, como pela sua actriz predilecta, Magdalena Montezuma (que se chamava verdadeiramente Erica Kruger), e que aqui se despedia do cinema e da vida.
Rodado no nosso país, pelo produtor Paolo Branco, com vários portugueses na ficha técnica e no elenco, “O Rei das Rosas” fala-nos de uma mulher, Anna, alemã de nascimento, a viver em Portugal, num palacete abandonado numa quinta de mau augúrio, acompanhada por Albert, um filho que cultiva rosas e paixões funestas, nomeadamente por Fernando, um jovem que apanha um dia a roubar na sua capela, e que transforma num prisioneiro da sua sensualidade e ardor.
Filme de uma perversidade que se instala à medida que o tempo passa, obra sobre o amor e morte, por vezes mórbido, de maligna crueldade e de terrível beleza, "Le Roi des Roses" joga com um imaginário que tem muito a ver com a obra de um Mishima, de “Confissões de uma Máscara” a “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar” (há uma concordância temática e de atmosfera quase obsessiva: mãe e filho, ausência da figura do pai, crueldade para com animais, o mar como referência de liberdade, exaltação do sofrimento, homossexualismo, imagem de martiriologia, São Sebastião, etc.).
Celebração, ritualismo, oratória, a simbologia mais forte inscreve-se a cada passo: mãe e filho na mesma cama numa sugestão de incesto que o filho renega, o sangue que escorre das rosas e passa ao corpo imolado de Fernando, a lavagem do corpo e a dependência de uma sensualidade exarcebada, o gato morto, a rã aprisionada numa gaiola dentro de água, o fogo redentor nas imagens finais, a morte suspensa de cada fotograma… A versão de “The Raven” mais conhecida, porém, é de Roger Corman, realizada em 1963, e que é o quinto filme da série dedicada a Edgar Allan Poe por este cineasta (os anteriores foram “A Queda da Casa Usher”, 1960; “O Fosso e o Pêndulo”, 1961, “O Sepultado Vivo”, 1962, “A Maldita, o Gato e a Morte”, 1962; a que se seguiram “A Máscara da Morte Vermelha”, 1964, e “O Túmulo de Ligeia”, 1964).
Neste conjunto de títulos, todos eles de forte inspiração fantástica, inscrevendo-se no mais puro terror gótico, “O Corvo” faz figura de desalinhado, pois, se mantém todas as características de série, quanto a valores de produção, equipa técnica e artística, cenários, guarda roupa, etc, acrescenta-lhe uma outra que só tinha sido pressentida aqui e ali ao longo dos outros filmes: o humor. Na verdade pode considerar-se “O Corvo”uma comédia fantástica, baseando muito do seu humor na presença de três actores míticos no género (Vincent Price, Peter Lorre e Boris Karloff) que aqui se auto parodiam com imensa subtileza e graça, criando situações divertidíssimas e saboreando de forma incomparável o seu trabalho. Nem o facto de Boris Karloff se encontrar doente, durante as filmagens, retirou algum enacnto ao resultado final, acrescentando-lhe até algum se possível: como Karloff estava doente, o duelo final entre ele e Vincent Price efectua-se com os actores sentados em enormes poltronas, o que acaba por ampliar o efeito da paródia. De resto, e para completar o que deve ser dito sobre o elenco, brilhante, há que referir a presença do então muito jovem Jack Nicholson, num papel que prenuncia já as geniais loucuras que se lhe seguiram, e ainda a bela Hazel Court, outra presença regular neste conjunto de filmes.
Uma das razões da qualidade desta série, é o facto de ter alguns escritores de grande qualidade a adaptarem os contos, e neste caso o poema, do celebrado escritor americano. Richard Matheson é um nome grande do romance fantástico e a ele se deve a adaptação do poema “O Corvo” de Edgar Allan Poe (outros escritores ao serviço de Corman nesta série foram, por exemplo, Charles Beaumont e Robert Towne).
Tudo se passa entre mágicos: o sorumbático Erasmus Craven (Vicent Price), que vive solitário no seu castelo, saudoso da sua Lenora desaparecida, vê inesperadamente entrar pela janela dentro um corvo que fala e que lhe confessa ser um antigo mago, enfeitiçado durante uma rija de mágicos, e que lhe pede a salvação, ou seja, uma mezinha que o faça regressar à sua antiga forma humana. Craven acaba por reunir os condimentos necessários à sopa de pedra que trará Bedlo (Peter Lorre) de novo à sua existência normal. Nessa altura, Bedlo confessa a Craven que a mulher deste, a tão suspirada Lenora, não se encontra morta e sepultada no esquife que o marido venera, mas sim nas mãos do perverso Scarabus (Boris Karloff), que vive por ali perto num outro castelo amaldiçoado. Para lá se dirigem, e por lá dirimem o que têm a dirimir. Com algum suspense e muita diversão.
O filme volta a mostrar como, com meios reduzidos mas alguma imaginação, muito talento e sensibilidade se consegue erguer uma obra particularmente interessante, recuperando algo do universo de Poe, e conceber em simultâneo um filme esteticamente de algum requinte e de assegurado sucesso popular.

THE RAVEN, 2 VERSÕES E 4 TRADUÇÕES

"O Corvo", o mais célebre poema de Edgar Allan Poe, teve duas versões e inúmeras traduções. Aqui ficam as duas versões do autor e quatro traduções brilhantes, todavia, cada uma delas tão representativa de Edgar Allan Poe como de cada um dos escritores que as traduziram (Baudelaire, Malharmé, Fernando Pessoa e Machado de Assis). O que demonstra bem que quem lê, o faz segundo a sua experiência e sensibilidade, pelo que não há duas "leituras" iguais, e que traduzir pode não ser trair, mas nunca reproduz a experiência do original.
THE RAVEN

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
" 'Tis some visiter," I muttered, "tapping at my chamber door —
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; — vainly I had tried to borrow
From my books surcease of sorrow — sorrow for the lost Lenore —
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore —
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me — filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating
" 'Tis some visiter entreating entrance at my chamber door —
Some late visiter entreating entrance at my chamber door; —
This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you" — here I opened wide the door; ——
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the darkness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"
Merely this, and nothing more.

Then into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon I heard again a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice;
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore —
Let my heart be still a moment and this mystery explore;—
'Tis the wind, and nothing more!"

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not an instant stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door —
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door —
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore —
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the raven, "Nevermore."

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning — little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no sublunary being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door —
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing farther then he uttered — not a feather then he fluttered —
Till I scarcely more than muttered, "Other friends have flown before —
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Quoth the raven, "Nevermore."
Wondering at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster — so, when Hope he would adjure,
Stern Despair returned, instead of the sweet Hope he dared adjure —
That sad answer, "Nevermore!"

But the raven still beguiling all my sad soul into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore —
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by angels whose faint foot-falls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee — by these angels he hath sent thee
Respite — respite and Nepenthe from thy memories of Lenore!
Let me quaff this kind Nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil! — prophet still, if bird or devil! —
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate, yet all undaunted, on this desert land enchanted —
On this home by Horror haunted — tell me truly, I implore —
Is there — is there balm in Gilead? — tell me — tell me, I implore!"
Quoth the raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil! — prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us — by that God we both adore —
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore —
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the raven, "Nevermore."

"Be that word our sign of parting, bird or fiend!" I shrieked, upstarting —
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! — quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the raven, "Nevermore."

And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon that is dreaming,
And the lamp-light o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted — nevermore!

Texto de Edgar Allan Poe, primeira edição, aparecido na revista “American Review”, em Fevereiro de 1845.
THE RAVEN

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore —
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visiter," I muttered, "tapping at my chamber door —
Only this and nothing more."
Ah, distinctly I remember it was in the bleak December;
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; — vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow — sorrow for the lost Lenore —
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore —
Nameless here for evermore.

And the silken, sad, uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me — filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating
"'Tis some visiter entreating entrance at my chamber door —
Some late visiter entreating entrance at my chamber door; —
This it is and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you" — here I opened wide the door; ——
Darkness there and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore?"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!" —
Merely this and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice;
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore —
Let my heart be still a moment and this mystery explore;—
'Tis the wind and nothing more!"

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately Raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door —
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door —
Perched, and sat, and nothing more. [column 5:]


Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient Raven wandering from the Nightly shore —
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven "Nevermore."

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning — little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door —
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."

But the Raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing farther then he uttered — not a feather then he fluttered —
Till I scarcely more than muttered "Other friends have flown before —
On the morrow he will leave me, as my Hopes have flown before."
Then the bird said "Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore —
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never — nevermore'."

But the Raven still beguiling my sad fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore —
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamp-light gloated o'er,
But whose velvet-violet lining with the lamp-light gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee — by these angels he hath sent thee
Respite — respite and nepenthe, from thy memories of Lenore;
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil! — prophet still, if bird or devil! —
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted —
On this home by Horror haunted — tell me truly, I implore —
Is there — is there balm in Gilead? — tell me — tell me, I implore!"
Quoth the Raven "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil! — prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us — by that God we both adore —
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore —
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven "Nevermore."

"Be that word our sign of parting, bird or fiend!" I shrieked, upstarting —
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! — quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven "Nevermore."

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamp-light o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted — nevermore!

Versão final, revista por Põe, aparecida em “Richmond Semi-Weekly Examiner”, em 1849.
LE CORBEAU

Une fois, sur le minuit lugubre, pendant que je méditais, faible et
fatigué, sur maint précieux et curieux volume d'une doctrine oubliée,
pendant que je donnais de la tête, presque assoupi, soudain il se fit un
tapotement, comme de quelqu'un frappant doucement, frappant à la porte
de ma chambre. "C'est quelque visiteur, - murmurai-je, - qui frappe à la
porte de ma chambre; ce n'est que cela, et rien de plus."

Ah! distinctement je me souviens que c'était dans le glacial décembre,
et chaque tison brodait à son tour le plancher du reflet de son agonie.
Ardemment je désirais le matin; en vain m'étais-je efforcé de tirer de
mes livres un sursi à ma tristesse, ma tristesse pour ma Léonore perdue,
pour la précieuse et rayonnante fille que les anges nomment Lénore, - et
qu'ici on ne nommera jamais plus.

Et le soyeux, triste et vague brissement des rideaux pourprés me
pénétrait, me remplissait de terreurs fantastiques, inconnues pour moi
jusqu'à ce jour; si bien qu'enfin, pour apaiser le battement de mon
coeur, je me dressai, répétant: "C'est quelque visiteur qui sollicite
l'entrée à la porte de ma chambre; - c'est cela même, et rien de plus."

Mon âme en ce moment se sentit plus forte. N'hésitant donc pas plus
longtemps: "Monsieur, - dis-je, - ou madame, en vérité, j'implore votre
pardon; mais le fait est que je sommeillais, et vous êtes venu taper à
la porte de ma chambre, qu'à peine étais-je certain de vous avoir
entendu." Et alors j'ouvris la porte toute grande; - les ténèbres, et
rien de plus!

Scrutant profondément ces ténèbres, je me tins longtemps plein
d'étonnements, de crainte, de doute, révant des rêves qu'aucun mortel
n'a jamais osé réver; mais le silence ne fut pas troublé, et
l'immobilité ne donna aucun signe, et le seul mot proféré fut un nom
chuchoté: "Léonore!" - C'était moi qui le chuchotais, et un écho à son
tour murmura ce mot: "Lénore!" Purement cela, et rien de plus.

Rentrant dans ma chambre, et sentant en moi toute mon âme incendiée,
j'entendis bientôt un coup un peu plus fort que le premier. "Sûrement, -
dis-je, - sûrement il y a quelque chose aux jalousies de ma fenêtre;
voyons donc ce que c'est, et explorons ce mystère. Laissons mon coeur se
calmer un instant, et explorons ce mystère; c'est le vent, et rien de
plus."

Je poussais alors le volet, et, avec un tumultueux battement d'ailes,
entra un majestueux corbeau digne des anciens jours. Il ne fit pas la
moindre révérence, il ne s'arrêta pas, il n'hésita pas une minute; mais,
avec la mine d'un lord ou d'une lady, il se percha au-dessus de la porte
de ma chambre; il se percha sur un buste de Pallas juste au-dessus de la
porte de ma chambre; - il se percha, s'installa, et rien de plus.

Alors, cet oiseau d'ébène, par la gravité de son maintien et la sévérité
de sa physionomie, induisant ma triste imagination à sourire: "Bien que
la tête, - lui dis-je, - soit sans huppe et sans cimier, tu n'es certes
pas un poltron, lugubre et ancien corbeau, voyageur parti des rivages de
la nuit. Dis-moi quel est ton nom seigneurial aux rivages de la nuit
plutonienne! "Le corbeau dit: Jamais plus!"

Je fus émerveillé que ce disgracieux volatile entendît si facilement la
parole, bien que sa réponse n'eût pas un bien grand sens et ne me fît
pas d'un grand secours; car nous devons convenir que jamais il ne fut
donné à un homme vivant de voir un oiseau au-dessus de la porte de sa
chambre, un oiseau ou une bête sur un buste sculpté au-dessus de la
porte de sa chambre, se nommant d'un nom tel que - Jamais plus!

Mais le corbeau, perché solitairement sur le buste placide, ne proféra
que ce mot unique, comme si dans ce mot unique il répandait toute son
âme. Il ne prononça rien de plus; il ne remua pas une plume, - jusqu'à
ce que je me prisse à murmurer faiblement: "D'autres amis se sont déjà
envolés loin de moi; vers le matin, lui aussi, il me quittera comme mes
anciennes espèrances déjà envolées." L'oiseau dit alors: "Jamais plus!"

Tressaillant au bruit de cette réponse jetée avec tant d'à-propos: "Sans
doute, - dis-je, - ce qu'il prononce est tout son bagage de savoir,
qu'il a pris chez quelque maître infortuné que le Malheur impitoyable a
poursuivi ardement, sans répit, jusqu'à ce que ses chansons n'eussent
plus qu'un seul refrain, jusqu'á ce que le De profundis de son Espérance
eût pris ce mélancolique refrain: "Jamais, jamais plus!"

Mais, le corbeau induisant encore toute ma triste âme à sourire, je
roulai tout de suite un siège à coussins en face de l'oiseau et du buste
et de la porte; alors, m'enfonçant dans le velours, je m'appliquai à
enchaîner les idées aux idées, cherchant ce que cet augural oiseau des
anciens jours, ce que ce triste, disgracieux, sinistre, maigre et
augural oiseau des anciens jours voulait faire entendre en croassant son
- Jamais plus!

Je me tenais ainsi, rêvant, conjecturant, mais n'adressant plus une
syllabe à l'oiseau, dont les yeux ardents me brûlaient maintenant
jusqu'au fond du coeur; je cherchai à deviner cela, et plus encore, ma
tête reposant à l'aise sur le velours du coussin que caressait la
lumière de la lampe, ce velours violet caressé par la lumière de la
lampe que sa tête, à Elle, ne pressera plus, - ah! jamais plus!

Alors, il me sembla que l'air s'épaississait, parfumé par un encensoir
invisible que balançaient des séraphins dont les pas frôlaient le tapis
de la chambre. "Infortuné! - m'écriai-je, - ton Dieu t'a donné par ses
anges, il t'a envoyé du répit, du répit et du népenthès dans tes
ressouvenirs de Lénore perdue!" Le corbeau dit: "Jamais plus!"

"Phrophète! - dis-je, - être de malheur! oiseau ou démon, mais toujours
phrophète! que tu sois un envoyé du Tentateur, ou que la tempête t'ait
simplement échoué, naufragé, mais encore intrépide, sur cette terre
déserte, ensocelée, dans ce logis par l'Horreur hanté, - dis-moi
sincèrement, je t'en supplie, existe-t-il ici un baume de Judée! Dis,
dis, je t'en supplie!" Le corbeau dit: "Jamais plus!"

"Phrophète! - dis-je, - être de malheur! oiseau ou démon! Toujours
phrophète! par ce ciel tendu sur nos têtes, par ce Dieu que tous deux
nous adorons, dis à cette âme chargée de douleur si, dans le Paradis
lointain, elle pourra embrasser une fille sainte que les anges nomment
Lénore, embrasser une précieuse et rayonnante fille que les anges
nomment Léonore." Le corbeau dit: "Jamais plus!"

"Que cette parole soit le signal de notre séparation, oiseau ou démon! -
hurlai-je en me redressant. - Rentre dans la tempête, retourne au rivage
de la nuit plutonienne; ne laisse pas ici une seule plume noire comme
souvenir du mensonge que ton âme a proféré; laisse ma solitude inviolée;
quitte ce buste au-dessus de ma porte; arrache ton bec de mon coeur, et
précipite ton spectre loin de ma porte!" Le corbeau dit: "Jamais plus!"

Et le corbeau, immuable, est toujours installé, toujours installé sur le
buste pâle de Pallas, juste au-dessus de la porte de ma chambre; et ses
yeux ont toute la semblance des yeux d'un démon qui rêve; et la lumière
de la lampe, en ruisselant sur lui, projette son ombre sur le plancher;
et mon âme, hors du cercle de cette ombre qui gît flottant sur le
plancher, ne pourra plus s'élever, - jamais plus!

(Tradução de Charles Baudelaire, 1856)
LE CORBEAU

Une fois, par un minuit lugubre, tandis que je m'appesantissais, faible
et fatigué, sur maint curieux et bizarre volume de savoir oublié, tandis
que je dodelinais la tête, somnolant presque, soudain se fit un heurt,
comme de quelqu'un frappant doucement, frappant à la porte de ma
chambre, cela seul et rien de plus

Ah! distinctement je me souviens que c'était en le glacial décembre :
et chaque tison, mourant isolé, ouvrageait son spectre sur le sol.
Ardemment je souhaitais le jour; vainement j'avais cherché d'emprunter
à mes livres un sursis au chagrin - au chagrin de la Léonore perdue -
de la rare et rayonnante jeune fille que les anges nomment Lénore -
de nom! pour elle ici, non, jamais plus!

Et de la soie l'incertain et triste bruissement en chaque rideau purpural
me traversait, m'emplissait de fantastiques terreurs pas senties
encore : si bien que, pour calmer le battement de mon coeur, je
demeurais maintenant à répéter : C'est quelque visiteur qui sollicite
l'entrée, à la porte de ma chambre; quelque visiteur qui sollicite l'entrée
à la porte de ma chambre; c'est cela et rien de plus

Mon âme se fit subitement plus forte et, n'hésitant davantage :
<> Ici j'ouvris grande
la porte : les ténèbres et rien de plus

Loin dans l'ombre regardant, je me tins longtemps à douter, m'étonner
et craindre, à rêver des rêves qu'aucun mortel n'avait osé rêver encore ;
mais le silence ne se rompit point et la quiétude ne donna de signe ;
et le seul mot qui se dit, fut le mot chuchoté <> je le
chuchotai et un écho murmura de retour le mot <> purement
cela et rien de plus

Rentrant dans la chambre, toute l'âme en feu, j'entendis bientôt un
heurt en quelque sorte plus fort qu'auparavant. <>

Au large je poussai le volet, quand, avec maints enjouement et agitation
d’ailes, entra un majestueux corbeau des saints jours de jadis. Il ne
fit pas la moindre révérence, il ne s’arrêta ni n’hésita un instant : mais,
avec une mine de lord ou de lady, se percha au-dessus de la porte de
ma chambre ; se percha sur un buste de Pallas, juste au-dessus de la
porte de ma chambre ; se percha, siégea et rien de plus

Alors cet oiseau d’ébène induisant ma triste imagination au sourire,
par le grave et sévère décorum de la contenance qu’il eut : <> Le Corbeau dit : <>

Je m’émerveillai fort d’entendre ce disgracieux volatile s’énoncer aussi
clairement, quoique sa réponse n’eût que peu de sens et peu d’à-propos ;
car on ne peut s’empêcher de convenir que nul homme vivant n’eut
encore l’heur de voir un oiseau au-dessus de la porte de sa chambre
- un oiseau ou toute autre bête sur le buste sculpté au-dessus de la porte
de sa chambre -, avec un nom tel que : <>

Mais le Corbeau perché solitairement sur ce buste placide, parla ce
seul mot comme si son âme, en ce seul mot, il la répandait. Je ne proférai
donc rien de plus ; il n’agita donc pas de plume, jusqu’à ce que je
fis à peine davantage que marmotter : <> Alors l’oiseau dit : <>

Tressaillant au calme rompu par une réplique si bien parlée ; <>

Le Corbeau induisant toute ma triste âme encore au sourire, je roulai
soudain un siège à coussins en face de l’oiseau, et du buste, et de la
porte ; et m’enfonçant dans le velours, je me pris à enchaîner songerie
à songerie, pesant à ce que cet augural oiseau de jadis, à ce que
ce sombre, disgracieux, sinistre, maigre, et augural oiseau de jadis
signifiait en croissant : <>

Cela, je m’assis occupé à le conjecturer, mais n’adressant pas une syllabe
à l’oiseau dont les yeux de feu brûlaient, maintenant, au fond de mon
sein ; cela et plus encore, je m’assis pour le devine, ma tête reposant
à l’aise sur la housse de velours des coussins que dévorait la lumière
de la lampe, housse violette de velours qu’Elle ne pressera plus, ah!
jamais plus.

L’air, me sembla-t-il, devint alors que dense, parfumé selon un
encensoir invisible balancé par les Séraphins dont le pied, dans la chute
tintait sur l’étoffe du parquet. <> Le Corbeau dit : <>

Et le Corbeau, sans voleter, siège encore, siège encore sur le buste pallidede Pallas, juste au-dessus de la porte de ma chambre, et ses yeux onttoute la semblance des yeux d’un démon qui rêve, et la lumière de la lampe, ruisselant sur lui, projette son ombre à terre : et mon âme,
de cette ombre qui gîte flottante à terre ne s’élèvera - jamais plus.

(tradução de Stephane Mallarmé)
O CORVO

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

"É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".

Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais

Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

Libertar-se-á... nunca mais!
(Tradução de Fernando Pessoa)
O CORVO

Em certo dia, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais".
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial Dezembros;

Cada brasa do lar sobre o colchão refletia
A sua última agonia.
Eu ansioso pelo Sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui, no peito,
Levantei-me de pronto, e "Com efeito,
(Disse), é visita amiga e retardada
"Que bate a estas horas tais.
"É visita que pede à minha porta entrada:
"Há de ser isso e nada mais".

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo, e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
"Mas como eu, precisando de descanso
"Já cochilava, e tão de manso e manso,
"Batestes, não fui logo, prestemente,
"Certificar-me que aí estais".
Disse; a porta escancar, acho a noite somente,
somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra
Que me amedronta, que me assombra.
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dilecta,
Lenora, tu, com um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos,
"Eia, fora o temor, eia, vejamos
"A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais,
"Devolvamos a paz ao coração medroso,
"Obra do vento, e nada mais".

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
de um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta em um busto de Palas:
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gosto severo, - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das nocturnas plagas
"Vens, embora a cabeça nua tragas,
"Sem topete, não és ave medrosa,
"Dize os teus nomes senhoriais;
"Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que eu lhe fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta a dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário.
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse,
Nenhuma outra proferiu, nenhuma.
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
"Tantos amigos tão leais!
"Perderei também este em regressando a aurora".
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
"Que ele trouxe da convivência
"De algum mestre infeliz e acabrunhado
"Que o implacável destino há castigado
"Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
"Que dos seus cantos usuais
"Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
"Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez nesse momento
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E, mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera,
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjecturando fui, tranquilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da Lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível:
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
"Manda repouso à dor que te devora
"Destas saudades imortais.
"Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora".
E o corvo disse: "Nunca mais".

"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Ave ou demónio que negrejas!
"Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
"Onde reside o mal eterno,
"Ou simplesmente náufrago escapado
"Venhas do temporal que te há lançado
"Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
"Tem os seus lares triunfais,
"Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Ave ou demónio que negrejas!
"Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
"Por esse céu que além se estende,
"Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
"Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
"No Éden celeste a virgem que ela chora
"Nestes retiros sepulcrais,
"Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o corvo disse: "Nunca mais!"

"Ave ou demónio que negrejas!
"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Cessa, ai, cessa! (clamei, levantando-me) cessa!
"Regressando ao temporal, regressa
"À tua noite, deixa-me comigo...
"Vai-te, não fique no meu casto abrigo
"Pluma que lembre essa mentira tua.
"Tira-me ao peito essas fatais
"Garras que abrindo vão a minha dor já crua"
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demónio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais.

(tradução de Machado de Assis)

sábado, 15 de novembro de 2008

NOTAS SOBRE EDGAR ALLAN POE NO CINEMA IV

EDGAR ALLAN POE E O CINEMA
Ao analisar de forma muito rápida e sucinta a filmografia extraída de obras de Edgar Allan Poe, cumpre desde logo fazer ressaltar algumas ideias chaves. A primeira é a de que, apesar deste escritor ser um dos expoentes máximos da literatura fantástica e um dos mestres da literatura mundial, mais ainda um dos iniciadores da literatura moderna, um poeta admirável, um contista exemplar, um precursor do romance policial, poucos foram os grandes mestres da História do Cinema que dele se aproximaram buscando inspiração para obras suas. Há casos, certamente, Griffith e Fellini são dois exemplos possíveis, mas nem os filmes daí resultantes foram dos mais conseguidos, nem dois ou três títulos em mais de duas centenas de filmes são marca significativa.
Vejamos então quem se tem interessado pela obra de Edgar Allan Poe no campo do cinema. Não erraremos muito se os juntarmos em três grupos: alguns, não muitos, vanguardistas europeus e norte-americanos, ligados a escolas surrealistas ou expressionistas (Jean Epstein, Robert Florey, Edgar G. Ulmer, etc.), alguns mestres de série B, que representam o que de melhor a inspiração de Poe nos legou no cinema (nomeadamente Roger Corman, Gordon Hessler, ) e um grupo vasto de artesãos de série Z, mais interessados no negócio do que em arte, mas que não deixa de ser significativo preferirem Poe em tantas ocasiões, umas por oportunismo, servindo-se do nome e do prestígio do escritor, outras por sincero interesse literário, nem sempre devidamente vertido em imagens, é certo!.
Outro aspecto curioso a sublinhar: as obras de Edgar Allan Poe raras vezes são adaptadas de forma muito fiel à intriga e ao esquema dramático das mesmas, preferindo-se-lhes uma adaptação ao espírito, à atmosfera, às obsessões do escritor. Nem por isso, no entanto, muitas das adaptações não serão conseguidas, sobretudo na forma como continuam ou prolongam o clima gótico de uma indisfarçável estranheza e mistério.
"MURDERS IN THE RUE MORGUE"
No início da década de 30, nos EUA, uma produtora, a Universal, inspirando-se nas obras expressionistas que tinham feito o sucesso do cinema alemão nos anos 20, recorreu a um conjunto de clássicos da literatura fantástica que adaptou ao cinema, e lançou no mercado um grupo de filmes de terror que marcaram uma época. “Drácula”, “Frankenstein”, “O Homem Invisível”, “O Homem Lobo”, “A Múmia” foram alguns títulos dos mais recordados, onde se notabilizaram cineastas como Tod Browning ou James Whale, e actores como Boris Karloff e Bela Lugosi. Mas houve outros títulos igualmente notáveis, alguns retirados de obras de Edgar Allan Poe, como “O Crime da Rua Morgue”, “O Corvo” e “Magia Negra” (The Black Cat). São todas elas de princípios dos anos 30, assinadas por realizadores de prestígio, como Robert Florey ou Edgar G. Ulmer, todas interpretadas por Bela Lugosi, então no auge do seu fascínio, em duas delas ao lado de Boris Karloff, e que não ficam muito atrás dos clássicos sempre citados deste período.
“O Crime da Rua Morgue”, de 1932, parte do romance homónimo de Edgar Allan Poe, não se cingindo nem muito nem pouco à intriga original da obra literária, antes usando e abusando das liberdades criativas dos seus argumentistas, realizador e produtores. Desta adaptação consta, aliás, uma lista de participantes bem larga (Robert Florey, Tom Reed, Dale Van Every, John Huston e Ethel M. Kelly) que devem ter mexido e remexido o caldo até este conhecer a espessura que hoje lhe dá o sabor da época.
Consta que Bela Lugosi e Robert Florey, actor e realizador do elenco fixo da Universal e que estavam indigitados para representar e dirigir “Frankenstein” (substituídos, à ultima hora, respectivamente por Boris Karloff e James Whale), vieram parar a “Murders In The Rue Morgue” como compensação pela saída dessa outra obra que se tornaria um dos mais sólidos clássicos da história do fantástico no cinema. Mas, na verdade, tanto Bela Lugosi, que triunfara brilhantemente meses antes em “Drácula”, como Boris Karloff, que atingiria o estrelato com “Frankenstein”, se tornaram de um dia para o outro os símbolos máximos do terror em terras norte-americanas.

Como se sabe, no original de 1841 de Edgar Allan Poe o essencial é o elogio de uma lógica dedutiva e analítica em que o protagonista, o jovem August Dupin, é pródigo. A novela vive muito do esclarecimento de um caso, de aparente impossível resolução, ocorrido na rua Morgue, de Paris. Duas mulheres, mãe e filha, são assassinadas barbaramente, mas o mais estranho de tudo, é a forma como os cadáveres de ambas aparecem, um escondido no interior de uma chaminé de lareira, o outro, degolado, nas traseiras do prédio. A multidão e a polícia que acorreram e subiram escadas acima, impediam a fuga de qualquer intruso por essa via, mas dentro de casa, num cenário de dantesca brutalidade, as janelas estavam fechadas e trancadas e não havia qualquer outra hipótese de fuga. Mas a multidão ouvira vozes masculinas, para lá dos gritos estridentes das mulheres assaltadas. Todo afirmam que uma das vozes era de um francês, mas a outra voz merece os mais desencontrados comentários. A polícia investiga, os poderes inquietam-se, os cidadãos vivem aterrorizados, mas ninguém parece acertar com a identidade do ou dos assassinos. Há mesmo um empregado de banco que é preso, suspeito de se ter servido de informações pessoais para certamente extorquir pesada soma às damas em questão, mas não há roubo, apesar de existirem quatrocentas moedas de ouro espalhadas pelo chão. Pierre Dupin necessita apenas de ler as notícias publicadas nos jornais locais e de uma sóbria peritagem no local do crime, para fazer publicar um anúncio num diário parisiense e esperar calmamente que o dono do chimpanzé apareça para o reclamar, levando-o depois a confessar como tudo se passou. “Elementar, meu caro Watson”, dirá, anos mais tarde, Conan Doyle, depois de ter lido e relido Poe, que lhe serviu obviamente de inspiração para conceber a sua fabulosa figura de Sherlock Holmes, com o mesmo tipo de faro intuitivo, a mesma dedução, o mesmo cariz analítico. Nada brota do zero, tudo se transforma, é conceito comummente sabido e aceite. Se a novela é deste tipo, esta versão de Robert Florey, de 1934, exagera nos floreados, ainda que se mantenha muito perto da atmosfera original, uma brumosa cidade de Paris, no ido ano de 1845, carregada de sombras ameaçadoras, de escadas de sinistro traçado, de contrastada iluminação de um claro-escuro de franco alento expressionista (podem referir-se como fontes de influência, mais ou menos directa, obras como “O Gabinete do Dr. Caligary” ou “Der Golem”, ambas de 1920, ou “Nosferatu”, de 1922, por exemplo), mas muito distante da intriga da novela. Pouco se fala de análise dedutiva, mas entra-se abertamente no campo dos sábios loucos e obstinados, das torturas e das experiências científicas, temas igualmente tão do agrado de Poe: Bela Lugosi, aqui na personagem do Dr. Mirakle, que não existe na novela, vive obcecado pela teoria darwineana da evolução, na qual o homem descende do macaco, e procura demonstra-la a todo o transe, utilizando um gorila como atracão de feira (muito na linha de um “O Gabinete do Dr. Caligary”), que atrai jovens donzelas, que o louco rapta para nelas injectar sangue do gorila e descobrir os resultados. Que não são brilhantes, nem para a ciência, nem para as incautas jovens que sucumbem a tantos maus-tratos. Até que um dia é Camille, a noiva do jovem médico Pierre Dupin (Leon Ames), a cair nos braços dos experimentalistas. Obviamente que a dedução de Dupin funciona a tempo de evitar maiores danos. A transferência do centro de interesse da novela para o filme é evidente. Na novela não se sabe, até perto do fim, quem assassina e como o crime é praticado e é nessa investigação puramente dedutiva que se materializa a inquietação. No filme, desde inicio que nós, espectadores, sabemos quem mata quem e como, resta saber apenas como se descobre o criminoso e se as forças do Bem chegam ao local do crime antes de se processar novo crime (agora com uma vítima que nós bem conhecemos e por quem nos batemos). Um novo tipo de suspense, é certo, introduzindo novas personagens, diferentes intrigas, multiplicidade de cenários e a personagem de um sábio louco que, não existindo na novela, não anda longe de outras personagens maléficas da corte de Edgar Allan Poe.
Mas o filme mostra-se particularmente curioso e interessante, em grande parte pela magnífica fotografia de Karl Freund, num preto e branco brumoso, conseguindo excelentes sequências, como as que mostram Paris à noite ou a cena passada na barraca do Dr. Mirakle. Há mesmo alguns momentos altíssimos de realização, como aquele em que Camille evolui num balouço, acompanhada pela câmara que oscila segundo os movimentos de um inquietante pêndulo, ou quando percorremos a câmara de horrores do malvado cientista. O clima é de série B, o orçamento não era certamente elástico (mas nesses anos de grande depressão os estúdios contiveram-se um pouco em todos os sentidos), mas o resultado não desmerece e Bela Lugosi brilha num tipo de representação amaneirada que o iria tornar célebre (durante uns anos, depois a queda foi mais ou menos vertiginosa, acabando nas mãos de Ed Wood!). Curiosamente, para se ver como tudo isto anda ligado, não foi só Conan Doyle que foi beber a Edgar Allan Poe, também Ernest B. Schoedsack e Merian C. Cooper foram buscar muitas ideias a esta obra de Florey para o seu clássico “King Kong” (toda a sequência final do gorila fugindo pelos telhado de Paris com a sua amada aos ombros nos faz recordar muito do que depois se veria em “King Kong”).
Esta não foi a primeira vez que "The Murders in the Rue Morgue" foi adaptado ao cinema. Tanto esta primeira aventura literária de Dupin, como as duas outras que se lhe seguiram ("The Mystery of Marie Roget" e "The Purloined Letter") conheceram várias adaptações. Mantendo-nos apenas no território de “Os Crimes da Rua Morgue” há logo a referir, ainda em 1908, uma primeira aproximação, muito curiosa. “Sherlock Holmes in the Great Murder Mystery” conta com argumento do próprio Arthur Conan Doyle, segundo a obra de Edgar Allan Poe, e é certamente lamentável não haver cópia disponível para se poder ver como ambos os mestres da literatura policial coexistiam numa mesma aventura. Outro filme mudo, este de 1914, é “Murders in the Rue Morgue”, de que não se possui nenhuma cópia igualmente, sendo portanto esta versão de Robert Florey de 1932 a primeira a poder ser vista presentemente.

Outras se lhe seguiram, a mais famosa das quais (possivelmente) data de 1954. “O Fantasma da Rua Morgue” (Phantom of the Rue Morgue), de Roy Del Ruth, com Karl Malden (Dr. Marais), Claude Dauphin (Insp. Bonnard), Patricia Medina (Jeanette e Steve Forrest (Prof. Paul Dupin), uma produção da Warner que pretendia objectivamente repetir o êxito estrondoso de “Máscaras de Cera”, em 3D. O título de Roy del Ruth é uma recuperação do filme de Robert Florey, agora em voluptuoso e garrido Warnercolor, com um jovem médico acusado de um violento crime na Rue Morgue, em Paris, que não cometeu, e um obsessivo Dr. Marais (excelente Karl Malden), que aproveitando-se da sua permanência no zoo local, consegue treinar um gorila para efectuar em seu nome os crimes que imagina, sempre sobre mulheres indefesas que se encontram fechadas no interior de solitários apartamentos. Numa Paris sedutora, onde impera a loucura do Can Can, e simultaneamente sombria, como convém, o gorila (interpretado por Charles Gemora, um especialista que já interpretara a mesma personagem na versão de 1932, e se tornara numa espécie de “must” sempre que havia por essa altura gorila, orangotango ou chimpanzé a movimentar) vai estilhaçando corpos com inaudita violência, numa versão muito “gore” que, infelizmente, não se encontra disponível ainda em DVD. Mais um vez em lugar de um pobre marinheiro que traz de longe um gorila assassino, a loucura de um homem se sobrepõe à da besta inocente que utiliza a sua força bruta sob comando à distância. Em vez de um crime duplo cometido numa casa, várias sádicas investidas relembram um Jack, o Estripador, que troca Londres por Paris. Roy Del Ruth foi um divertido realizador de séries B, e o filme adquire essa atmosfera de folhetim popular contando crimes do século XIX. Vi esta fita há muitos anos, retenho boa recordação de adolescente traumatizado (!) pelo seu terror, mas precisaria de rever a obra para uma opinião mais segura. Fica a dica. Em 1968, surge um episódio de uma série de TV, "Detective", contando a história de“The Murders in the Rue Morgue”, numa realização de James Cellan Jones, com argumento de James MacTaggart. Não vi.
Há muito que não via “Murders in the Rue Morgue”, de Gordon Hessler, com Jason Robards (Cesar Charron), Herbert Lom (Rene Marot), Christine Kaufmann (Madeleine Charron), Adolfo Celi (Inspector Vidocq) e Maria Perschy (Genevre). Como o próprio Gordon Hessler afirmou, numa entrevista que o DVD recorda, “adaptar “Os Crimes da Rua Morgue” é difícil, pois já se lhe conhece o desfecho: foi o macaco que matou.” Este aspecto (que julgo um falso problema: quantos filmes adaptam obras e situações de que todos sabemos o desfecho, basta recordar “Titanic” ?) levou Hessler a imaginar algo mais complexo para esta sua versão: estamos em pleno século XIX, na Rue Morgue, em Paris (o filme foi, porém, integralmente rodado em Espanha), onde uma companhia de teatro, especializada em “Grand Guignol” sangrento e melodramático, dirigida por um espalhafatoso Cesar Charron (Jason Robards), leva a cena uma adaptação de "Murders in the Rue Morgue", segundo Edgar Allan Poe. Esta premissa serve às mil maravilhas para roubar o nome da obra de Poe, e depois associar-lhe uma intriga externa, que, muito embora tenha um pouco a ver com o universo Poe, não se lhe pode associar de imediato: René Marot, um louco mascarado, apaixonado por uma das actrizes da companhia, Madeleine (Christine Kaufmann), vai assassinando, por vingança, um a um, os membros do elenco desse teatro, onde se representa uma peça robustecida pela presença de um gorila que dá nome à obra, “Erik, o Macaco”. Todos julgavam René Marot morto, a quando de um acidente que vitimara a ex-mulher de Marot, mas afinal este salvara-se ainda que muito desfigurado. O filme joga com alguma perícia com estes ingredientes, com um colorido saturado de tons fortes e uma inquietante direcção artística, que sublinha bem algumas das virtudes da realização de Gordon Hessler, um experimentado artesão de série B, aqui mobilizando um orçamento favorecido pela sorte (que, todavia, lhe haveria de trazer contrariedades, pois a versão estreada era uma montagem do produtor e não a sua, que só muito recentemente foi restaurada, aquando do lançamento internacional do DVD). Um filme que se vê com muito agrado, integrado no seu contexto especifico. Estamos na verdade cada vez mais distantes de Poe e da sua história original e cada vez mais perto de “The Phantom of the Opera” (não é por acaso que o louco mascarado é interpretado por Herbert Lom que também aparecia na versão da década de 50 de “O Fantasma da Ópera”). Mas há indícios de Poe na loucura das personagens, nos sonhos perturbadores, nos assassinatos mórbidos (das gargantas friamente cortadas pela lâmina ao ácido vertido em inocentes rostos), nos sepultados vivos, numa certa atmosfera tenebrosa de horror psicológico.

A versão francesa de Jacques Nahum, de “Le Double assassinat de la rue Morgue”, com Georges Descrières e Daniel Gélin (Dupin), emitida pela TV em 1973, também é do meu desconhecimento, mas revi com agrado uma outra versão televisiva, esta assinada por Jeannot Szwarc, e que se chamou “The Murders in the Rue Morgue” ou “Le Tueur de la Rue Morgue”, produção norte americana e francesa, rodada em Paris, com argumento de David Epstein, que se aproxima um pouco mais da dedução analítica da novela, ainda que transforme Dupin num velho polícia francês, reformado a contra gosto, por inimizades com o novo director da gendarmerie. Os crimes acontecem como Poe imaginou, as investigações fazem apelo amiúde a conjecturas de argúcia dedutiva, existe um marinheiro e um gorila que só aparecem no final da história, e as liberdades “poéticas” são aqui reduzidas. Procura-se respeitar o tom da obra donde se parte, a imaginação visual não é estonteante, tudo se cumpre dentro dos cânones do teledramático de sólida construção técnica, as representações são boas por parte de um elenco resistente (George C. Scott, Rebecca De Mornay, Ian McShane, Val Kilmer, …). Não é Poe de primeira colheita, falta-lhe fantasia e um pouco de fancaria popular, esta é uma versão para telespectador bem instalado na vida, que se vê como um entretenimento sem mácula. De uma outra versão tenho conhecimento, russa, “Ubitye molniey”, de 2002, assinada por Yevgeny Yufit, com argumento de Vera Novikova. Apnas conhecimento, nada mais. Assim se completa o ciclo de “Os Crimes da Rua Morgue” no cinema. Mas muitas obras de Edgar Allan Poe requerem a nossa atenção.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A QUEDA DA CASA USHER - THE ALAN PARSONS PROJECT - II


The Fall of the House of Usher - The Alan Parsons Project Parte II

A QUEDA DA CASA USHER - THE ALAN PARSONS PROJECT


The Fall of the House of Usher - The Alan Parsons Project

A QUEDA DA CASA USHER - ROGER CORMAN


Excerto do filme de Roger Corman II