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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

NOTAS SOBRE EDGAR ALLAN POE NO CINEMA, VII

A QUEDA DA CASA USHER
“A Queda da Casa Usher”, que Edgar Allan Poe escreveu em 1839, é um dos seus trabalhos mais conhecidos e mais adaptados não só ao cinema como a outras formas de expressão e de narrativa. No cinema são inúmeras as versões conhecidas, a começar logo perla década de 20, onde surgem duas adaptações vanguardistas, uma americana, de 1926-28, da dupla James Sibley Watson e Melville Webber, outra francesa, de um dos nomes grandes da vanguarda dessa época, Jean Epstein. A primeira é uma curiosa experiência de recorte nitidamente expressionista, filmada em Rocheter, Nova Iorque, com uma forte influência de poetas e artistas plásticos, expressa aliás na colaboração de Melville Webber, que assegurou o lado plástico, procurando recuperar certos aspectos dos frescos medievais, e de James Sibley Watson, que se interessou mais pelos efeitos visuais em que o pequeno filme (13 minutos) é pródigo e que logram efeitos muito sugestivos.
“A Queda da Casa de Usher” (La Chute de la Maison Usher), de 1928, França, tem argumento de Jean Epstein e Luis Buñuel (que foi ainda assistente de realização) e interpretação de Jean Debucourt (Sir Roderick Usher), Marguerite Gance (Madeleine Usher), Charles Lamy (Allan), Fournez-Goffard (médico), Luc Dartagnan, Abel Gance, Halma, Pierre Hot, Pierre Kefer, etc. São 63 minutos do melhor que Poe inspirou ao cinema, uma verdadeira obra-prima do fantástico e do onírico, logrando criar Jean Epstein uma atmosfera poética admirável, através da fabulosa utilização da imagem, dos enquadramentos, dos movimentos, do jogo de combinação de grandeza de planos, da iluminação, da própria “encenação” dos espaços.
Por uma terra de ninguém ventosa e lúgubre, solitária e inóspita, avança um homem carregando duas malas. Entra numa estalagem e pede para alguém o conduzir a casa dos Usher. Olham-no surpresos e com estranheza. Percebe-se a razão que leva o desconhecido até ali: uma carta de Roderick Usher convida Allan, um velho amigo, a visitá-lo, adiantando que está doente e a mulher também. Um saco de moedas na mão de Allan e o aparecimento de alguém numa carroça provoca o efeito desejado. Chegado ao palácio, e depois das boas vindas, o jantar onde Roderick e Allan recuperam memórias. Mas Roderick está impaciente. Quer continuar a trabalhar no retrato da mulher, Madeleine (subtil desvio do conto de Poe, Madeleine passa de irmã a mulher). Por isso, Allan é enviado para uma passeata pelo campo, enquanto Roderick (magnificamente interpretado por Jean Debucourt, num tipo de composição extremamente conseguida, em vigor e subtileza, uma mistura invulgar que surpreende e fascina) volta ao quadro e à mulher que posa, ameaçada pelo olhar do marido que a consome, a domina, a submete. Há uma cena brilhante que confere todas essas sensações: grande plano do rosto de Roderick, o seu olhar obsessivo; plano de Madeleine, posando, inscrita num cenário soturno, implorando tréguas com o olhar; pormenor das mãos de Roderick apertando-se; plano da paleta, do pincel escolhendo as cores e as tintas.
Madeleine é o modelo, a inspiração; Roderick pinta-a, olha-a, suga-lhe a vida com o olhar. Cada nova pincelada no quadro reflecte-se no rosto de Madeleine, que se sente atingida, macerada. Roderick pinta à luz de velas que se consomem. A imagem desta sequência restitui a tortura, o martírio, a posse, a violação. Súbito a câmara afasta-se e descobre-se a grandeza do cenário, um salão enorme, onde Roderick dá pasto à sua obsessão. Olha a mulher, olha a paleta, olha o quadro. Está obviamente muito mais interessado no quadro do que no modelo. Dirá mais tarde: “O quadro é a verdadeira vida”. A mulher jaz no chão, desfalecida. Ele continua a pintar sem dar por nada. Madeleine morre. Roderick transporta-a então nos braços, horrorizado. Allan, lendo um livro comenta: “Roderick estava possuído pela teoria do magnetismo.” (algo que interessava muito Edgar Allan Poe).
Segue-se toda a sequência da preparação do enterro, as dúvidas (“Ela não está talvez morta!?”), Roderick quer impedir o enterro, o quadro toma definitivamente o lugar da mulher morta (“Ela não nos abandonará!”), o pintor olha-o, extasiado, enquanto o caixão é fechado, perante o horror de Roderick. Sequência que relembra em muitos aspectos planos de “Nosferatu”, de Murnau. O enterro inicia-se, passam por áleas de jardins, por entre o nevoeiro, vogam ao sabor das águas de um rio, o véu branco desta fúnebre noiva deslizando nas águas, erguendo-se no ar, preso da barcaça. Descem à cripta, uma boca aberta iluminada do exterior, projectando luz. O caixão é fechado, pregado finalmente, o martelo do horror descendo sobre o prego, iluminados por velas. Ratos que fogem pelos cantos, um sapo.
Depois do enterro, o silêncio que tudo envolve. A monotonia. A natureza-morta. Rio, serra, palacete, ninguém. Um gato. Roderick olha escadas e corredores desertos, os cortinados esvoaçando. O mínimo ruído exaspera-o. A guitarra abandonada. As mãos cruzadas. Sonho, pesadelo, imagens deformadas, sobreposições, grandes planos de rostos, pormenores ameaçadores. As cordas da guitarra que se soltam, sozinhas, “Roderick não volta a proferir o nome de Madeleine”. Parece paralisado pela dor. Um relógio. Um pêndulo que se assemelha muito ao pêndulo de “The Pit and the Pendulum”. O tempo que passa. A tempestade que avança. Allan lê num livro uma passagem sobre uma sepultada viva. Enquanto isso, na cripta, o caixão de Madeleine tomba da prateleira onde fora depositado. Roderick, no vasto salão, junto ao fogo que crepita na lareira, balouça os pés sentado numa cadeira. As velas pegam fogo aos cortinados com a ventania que se abate sobre o palácio, que começa também a desmoronar-se. As armaduras metálicas nos corredores desabam. Roderick olha fascinado a destruição. Será loucura, a deste olhar? Madeleine regressa, de branco, noiva, de véus ao vento, flutuando como um fantasma. “Sim, ouço-a, ouço-a desde o primeiro dia!”, grita Roderick. “Nós enterrámo-la viva!”. O fogo tudo cobre. Allan afasta-se para o exterior do palácio. Madeleine e Roderick abraçam-se, e é assim que tentam fugir das labaredas. Em vão. O quadro de Madeleine sossobra igualmente no inferno das chamas.
Nesta obra que interpreta da melhor forma o universo de Poe, inspirando-se em Dreyer (“O Vampiro”), e Murnau, em “O Retrato de Dorian Gray”, na literatura, Epstein cria um ambiente de cortar à faca, com uma enorme economia de meios, usando uma linguagem vanguardista que vai buscar muito aos expressionistas, mas também ao surrealismo e aos vanguardistas franceses dessa época. Um grande momento de cinema.
“The Fall of the House of Usher” regressa aos ecrãs, em 1949, com assinatura de Ivan Barnett, numa produção inglesa. Que desconhecemos.
A partir dos anos 50, a televisão não larga a obra de Poe, com várias versões conhecidas. Ainda em 1949, o produtor Fred Coe, na série de TV "Lights Out", faz uma primeira versão televisiva de “The Fall of the House of Usher”. Ainda na América, em 1956, em "Matinee Theatre", é Boris Sagal quem dirige o episódio dedicado à “House of Usher”. Em Inglaterra, em 1966, Kim Mills volta ao tema, num dos episódios de “Mystery and Imagination", interpretado por Denholm Elliott (Roderick Usher), e Susannah York (Madeleine Usher). Em França, em 1981, será Alexandre Astruc quem dirigirá Fanny Ardant (Madeleine Usher), Mathieu Carrière (Sir Roderick Usher) e Pierre Clémenti, num dos episódios de “Histoires Extraordinaires: La Chute de la Maison Usher”. Na Hungria, Attila Apró, em 1982, assina “AzElitélt”, igualmente para TV, segundo o mesmo conto. James L. Conway, numa produção norte-americana e checoslovaca, no mesmo ano, adapta ao pequeno ecrã o mesmo texto de Poe, com um bom elenco: Martin Landau (Roderick Usher), Charlene Tilton e Ray Walston. Em 1988 é a vez de outro americano, Alan Birkinshaw, se lançar na mesma empreitada, com interpretações de Oliver Reed (Roderick Usher), Donald Pleasence e Romy Windsor. “La Chute de la Maison Usher” surge na Bélgica, em 1992, com realização de Marc Julian Ghens. A série de TV "Tales of Mystery and Imagination", com realização de vários cineastas (James Ryan, Bill Hays, Dejan Sorak, Rod Stewart, Neil Hetherington, Hugh Whysall), data de 1995, e volta a penetrar na casa de Usher (além de incursões por outros textos de Poe), com resultados nulos. Parece mesmo que a série, de tão má, nunca chegou a exibir-se por essa altura na TV, e só agora foi posta a circular em DVD. Infelizmente. Trata-se globalmente de um daqueles produtos excelentes para mostrar em salas de aula de cinema, para demonstrar o que está errado e o que não deve ser feito. Mas há também aquilo que não se ensina, nem pelo absurdo: o mau gosto, a falta de sensibilidade, a total inépcia narrativa. Em 2002, “Usher”, de Curtis Harrington, poderá ser uma versão a considerar (ainda que difícil de encontrar, pelo que ainda não a visionei), com o próprio realizador Curtis Harrington a interpretar dois papéis, Roderick Usher e Madeline Usher. Uma investida “queer”, em 40 minutos que gostaríamos certamente de ter visto, mas não conseguimos
Mas a obra mais carismática de entre todas as retiradas deste conto de Poe terá sido “House of Usher”, de 1960, com a assinatura de Roger Corman, e argumento adaptado por Richard Matheson, um escritor do fantástico norte-americano de muito bom nível. Foi o início do ciclo dedicado por Roger Corman a Edgar Allan Poe. Com uma equipa que variou muito pouco, produção de Roger Corman e James H. Nicholson, música original de Les Baxter, fotografia, de excelente colorido com a assinatura de Floyd Crosby, montagem de Anthony Carras, direcção artística de Daniel Haller e um reduzido elenco onde sobressaia Vincent Price (Roderick Usher), bem acompanhado por Mark Damon (Philip Winthrop), Myrna Fahey (Madeline Usher) e Harry Ellerbe (Bristol). Falemos então do conto, antes de passarmos à versão cinematográfica. Na obra de Poe, o narrador que viaja até casa dos Ushers empreende essa viagem para visitar um velho amigo de juventude, Roderick Usher, que não via há muito, e que lhe escrevera a solicitar companhia nos momentos difíceis por que passava, por motivos de saúde própria e de sua irmã, Madeline. É deste modo que o cavaleiro se aproxima da destroçada casa dos Usher, por caminhos de mau agoiro, como que hipnotizado pelo destino que ali o conduz. No filme Philip Winthrop viaja até àquela mansão amaldiçoada porque se encontra noivo de Madeline, Roderick pede-lhe que se afaste, manda-o embora, insiste, exorta-o, mas Philip permanece na sua, querendo ir embora apenas se for acompanhado da sua amada. Depois, no conto, há várias personagens que se cruzam na casa, no filme quase toda a acção roda à volta de Roderick, Madeline, Philip e um velho criado da casa. Todo o conto é muito intimista, referindo-se a pensamentos de Philip e às considerações de Roderick, que se voltam muito para ele próprio. Trata-se quase de um confronto de duas mentes, de duas vontades, de dois projectos. No filme, obviamente que as acções de concretizam mais no plano da realidade. Corman “mostra” onde Poe evoca, mas a transposição não deixa de ser não só eficaz como mesmo sugestiva. Corman é um cineasta como uma sensibilidade que se coaduna bem com os ambientes e as personagens criadas por Poe, desenvolve climas de um fantástico inquietante sem jogar no primarismo do sangue a jorros e dos efeitos em catadupa, explora sobretudo o suspense perturbador, através de efeitos puramente plásticos, a duração do plano, do movimento, a utilização da banda sonora, o recurso à interpretação. O filme baseia-se, sobretudo, em quatro personagens e uma casa, um palácio à beira da ruína, atravessado por fendas que, hora a hora, vão criando clivagens mais aterrorizadoras, enterrando-se progressivamente num pântano onde a natureza fenece e nada se cria. É a maldição dos Usher a estender-se à paisagem ou esta a estrangular a família no interior do seu palácio a desmoronar-se. Casa e família sucumbem ao mesmo mal. Roderick Usher lamenta-se de uma absoluta hipersensibilidade, algo que quase não o permite contactar com o mundo exterior, uma luz mais intensa violenta-lhe os olhos, qualquer pequeno som atravessa-lhe os tímpanos como um trovão, um sabor mais forte atormenta-o, só suporta tecidos de uma macieza rara, move-se como que pairando sobre o chão… Madeleine parece atreita ao mesmo mal, ambos se declaram, pela voz de Roderick, próximos da morte. Por isso Roderick não permite a Philip partir com a sua amada, que, no entanto, não parece assumir a mesma atitude. Mas a vontade de Roderick é mais forte, e a maldição estende-se sobre o palácio, que no final conhecerá uma dupla “morte”, incendiado e submergido nas águas do pântano, enquanto temas como o incesto e a catalepsia se assenhoreiam da obra e os sepultados vivos saem das criptas com as mãos ensanguentadas e as gargantas roucas de gritarem por socorro. Puro terror de criação Edgar Allan Poe muito bem recriado pela fantasia e o competente talento de Corman, a sua enorme economia de meios, o seu bom gosto visual, o refinamento de um estilo que não pode deixar-se de sublinhar.
A economia de meios é de tal forma que um filme destes é rodado em menos de duas semanas, outro se lhe segue de imediato, rodado com a mesma equipa, um elenco semelhante, os mesmos cenários, iguais adereços e guarda-roupa, de forma a que essa produção continua embarateça o orçamento, permitindo o talento de Corman que estas produções de série B sobrevivam como clássicos e filmes de culto que mantêm, quase cinquenta anos depois, toda a sua magia.
Sobre o mesmo tema, Jesus Franco (ou Jess Franco), em Espanha, no ano de 1982, recoloca as personagens em cena, numa interessante série B, que conheceu diversos títulos: “Revenge in the House of Usher” ou “La Chute de la Maison Usher” ou “Los Crímenes de Usher” ou “El Hundimiento de la Casa Usher” ou “Neurosis” ou “Nevrose” ou “Revolt of the House of Usher” ou “Zombie 5”. O veterano Jesus Franco (mais de 180 títulos na sua filmografia!) nunca foi cineasta para grandes subtilezas, mas o seu cinema, muito popular e por vezes excessivamente oportunista no namoro ao público (no sexo e no gore), conseguia ter alguma graça, numa demonstração de uma certa “inocência” cultural, apesar do realizador manifestar alguns conhecimentos sobre literatura e estética cinematográfica. Curiosamente, Jesus Franco considera esta sua versão de “A Queda da Casa Usher” uma das mais fiéis a Edgar Allan Poe e a sua obra mais pessoal e menos comercial, um verdadeiro “filme de autor”. O filme tem momentos fracos, mas ostenta algumas sequências bastante bem conseguidas num plano plástico, onde as influências do expressionismo são evidentes. Neste aspecto, todas as cenas a preto e branco, que remetem para flash backs, conseguem impressionar pela positiva, muito embora a interpretação dos actores não seja das mais convincentes. Mas globalmente é um filme interessante, que aproxima a Casa Usher de um covil de vampiros, para onde são raptadas mulheres de vida fácil, para abastecerem de sangue a muito debilitada filha de Usher (para lá de outras personagens com gostos afins). Há uma personagem que relembra o velho de “O Coração Revelador”. Há sequência que recordam outros filmes de Fraco (particularmente El Secreto del Dr. Orloff”). Curioso, tanto mais que DVD onde se disponibiliza esta pequena fita de terror contem uma curiosa entrevista com o cineasta espanhol, personagem particularmente singular no universo do cinema fantástico. Nada, porém, que se possa comparar com Roger Corman.
“The House of Usher” volta a interessar os estúdios norte-americanos, uma vez em 1988, com realização a cargo de Alan Birkinshaw, argumento de Michael J. Murray, e interpretação de Oliver Reed (Roderick Usher), Donald Pleasence (Walter Usher) e Romy Windsor; outra já em 2006, numa interessante direcção de Hayley Cloake, sobre argumento de Collin Chang que transporta a história para a actualidade (o que parece quase impossível é assegurado com alguma coerência pelos responsáveis). Uma casa senhorial perdida numa zona rural da província, a morte declarada de Madeline, irmã de Roderick Usher, uma amiga, Jill Michaelson, que vem ao funeral, e que fora antiga namorada de Roderick, e uma governanta intrigante que relembra personagem de “Rebecca” e se chama, por alguma razão, Mrs. Thatcher. A casa não racha mas assusta, não há incêndio ou descalabro que a destrua na derradeira sequência, mas de resto, apesar de passar-se no século XXI, a família sofre das mesmas maldições e doenças afins (com modernos tratamentos a condizer com a época), o incesto não só paira no ar, como se insinua mesmo de forma mais descarada, a danação dos Usher tem razão de ser numa consanguinidade que passa de irmãos para irmãos e de pais para filhos, e a loucura dessa herança que se quer manter a todo o custo acaba por ter os seus dissabores. O filme é discreto, mas mantém um bom clima, uma fotografia aceitável, uma interpretação de desconhecidos que não comprometem. É uma versão que se vê com agrado, numa noite em que não se tiver nada de melhor a fazer (ou se esteja a ver – quase - de castigo as obras de Edgar Allan Poe adaptadas ao cinema!).

terça-feira, 3 de junho de 2008

segunda-feira, 26 de maio de 2008

NOTAS SOBRE EDGAR ALLAN POE NO CINEMA III


ROGER CORMAN E O "CICLO POE" NA REVISTA FILME (1963)

A recuperação deste texto meu, datado de 1963, e aparecido na revista “Filme”, dirigida por Luís de Pina, é uma curiosidade que não deixa de suscitar nostalgia e um irónico sorriso. Creio que foi o meu primeiro trabalho para essa revista, e motivou um dos primeiros encontros com Luís de Pina, de quem tive o privilégio de vir a ser amigo, até à sua morte permatura. Depois, nesse ano, muito poucos davam atenção a obras estreadas em cinemas populares como o Olympia, onde se lançaram em Portugal quase todos os filmes de Roger Corman. Na altura eram salas “inferiores”, onde raramente se estreavam obras de certa “dignidade” cinematográfica. Foi lá que descobri Roger Corman, foi nessa altura que o defendi com unhas e dentes, este um dos textos onde isso aconteceu. Mais tarde, tudo mudou e Corman tornou-se um “must” da “inteligência” internacional (logo da “inteligência” nacional). Ultimamente até com passagem na elitista Cinemateca Portuguesa. Mas no catálogo do Ciclo dedicado a Roger Corman não aparece uma única referência a estes textos, escritos por um crítico de 21 anos. Mas surgem muitas transcrições de textos estrangeiros, todos eles referentes a publicações posteriores a 1985. Curioso.
A recente exibição entre nós, com o curto intervalo de dois meses, de várias películas de Roger Corman – “A Queda da Caso Usher” (“The Fall of House of Usher”), “O Fosso e o Pêndulo” (“The Pit and the Pendulum”), A Maldita, o Gato e a Morte” (“Tales of Terror”) e “Armas em Fúria” (“The Gunlinger») (1), chamou a atenção do público e da crítica lisboeta para este jovem realizador que produziu já cerca de sessenta películas, tendo realizado, dentre estas, quarenta e tantas.
Roger Corman (2) nasceu em Michigan (Detroit), a 5 de Abril de 1926. Fez os estudos primários na Califórnia e frequentou a Universidade de Standford. Durante a 2ª Grande Guerra, encontramo-lo num curso preparatório para oficiais da Marinha, donde sai bacharelado em ciências marítimas. Quando a guerra terminou, Corman trabalhou como engenheiro, “durante quatro dias” (como ele próprio afirma), findos os quais se emprega na Twentieth Century Fox.
Tendo passado por quase todos os lugres que conduzem à criação cinematográfica, propriamente dita, Corman tornou-se, rapidamente, um “story analyst”, altura em que partiu para Inglaterra, a fim de apresentar uma tese na Universidade de Oxford, sobre literatura inglesa. Antes de regressar à América, viajou pela Europa, tendo-se fixado algum tempo em Paris. De volta à Califórnia dispersou colaboração literária por diversos revistas e escreveu alguns argumentos que mereceram a adaptação ao cinema.
Finalmente, em 1954, produziu um filme sobre um “script” seu (“Monster from the Ocean Floor”) e nesse mesmo ano funda uma nova empresa produtora de filmes (a American-lnternational-Píctures) cuja primeira película foi “The Fast and the Furious”, com Dorothy Malone e John Ireland.
No ano seguinte (1955) realiza o seu primeiro filme (“Five Guns West”), um “western” que teve muito bom acolhimento e lhe abriu as portas a uma carreira fecunda e promissora.
Quase nunca a abundância reflecte qualidade ou, pelo menos, honestidade de processos e de fins. Poderá, portanto, começar por pensar-se que Roger Corman, realizando uma média de sete ou oito filmes anuais (quarenta e cinco, em sete anos), alcançando mesmo os dez, nalguns anos, é o género de realizador puramente comercial, sem pretensões de qualquer espécie, a não ser as sempre deploráveis intenções de mistificar, agradando ao público, servindo-o nos seus instintos mais primários. Ora tal não parece ter sido nunca o caso de Roger Corman, de quem conhecemos apenas três das obras atrás mencionadas, mas de quem colhemos excelentes referências de probidade profissional e cujas duas últimos obras conhecidas – “Young Racers” e “The Intruder” - reflectem preocupações de ordem social, bem definidas.
O caminho percorrido por este jovem - o inverso do de um Martin Ritt, de um Sidney Lumet ou de um Delbert Mann, que começaram as suas carreiras com obras que se recusavam moldar ao esquema comercial da máquina de Hollywood - parece igualmente assegurar um interessante futuro onde serão possíveis películas de grande qualidade.
É interessante referir o tipo de produção que Corman adoptou e que revela, apesar de ser genuinamente americano, uma certa originalidade de processos. Para conseguir um ritmo de produção que lhe permitisse alcançar a médio de sete a oito filmes por ano, Corman rodeou-se de uma equipa de colaboradores, que tem mantido, o mais que lhe é possível, de película em película, desde 1960.
Deste grupo homogéneo e seguro fazem parte o operador Floyd Crosby, o director artístico Daniel Haller, o escritor Richard Matheson (que, como veremos, foi o homem da ideia de um ciclo de adaptações cinematográficas de obras do grande escritor norte-americano Edgar Allan Poe), o músico Ronald Stein, o primeiro actor Vincent Price e mais alguns actores secundários. Uma equipa assim estruturada possibilita a realização duma película, num tempo de rodagem mínima e com um orçamento reduzido, em comparação com o que é normal e usual entre as empresas norte-americanas.
Assim, uma película para este jovem director demora, em regra, quinze dias em filmagens (Roger Corman conta que terminou uma das suas histórias em dois dias e uma noite!} e a orçamento nunca ultrapasso os 750.000 dólares, tendo até conseguido dirigir alguns com a importância de 15.000 dólares. No respeitante ao elenco, Corman chama, somente, para cada uma das suas obras, um actor de nomeada, a quem entrega o papel mais espinhoso (Boris Karloff, Peter Lorre, Ray Milland, Dorothy Malone ou Vincent Príce), trabalhando, nos restantes personagens, com actores desconhecidos.
A maioria das suas obras são de uma grande honestidade e as suas pretensões nunca vão além do que lhes é lícito pedir. Na sua filmografia encontramos filmes de “cow-boys”, musicais (de “rock-and-roll”), de ficção-cientifica, biografias de gangsters, reconstituições históricas, fantasias interplanetárias, filmes de terror, adaptastes shakespearianas e, por último, obras de pretensões sociais (como a luta anti-racista e anti-fascista em “The Intruder”). Em todos estes géneros, segundo o testemunho de críticos conhecedores de grande parte da sua filmografia, revela-se Corman um director que sabe enquadrar e se integra bem em qualquer espécie de conflito e dele extrair as necessárias ilações, que tornam as obras curiosas e interessantes.
Autor extraordinariamente fecundo, Roger Corman, ao falar dos seus filmes, afirmou: “Os filmes de pequeno orçamento que fiz no passado foram para mim uma excelente ocasião de aprender o meu ofício e creio que divertiram muita gente.”
Noutra passagem, Corman diz: “Verdadeiramente não me lembro de todos os meus filmes, mas entre os mais importantes que produzi e realizei, posso citar, por ordem: “Five guns west”, “Apache Women”, “The day the word ended”, “Swamp women”, “Thunder over Hawaii”, “Rock all night”, “The undead”, “The gunshinger”, “Not of this earth”, “Machine gun Kelly”, “l mohster”, “Bucket of blood”, “War of the satellite”, “The wasp woman”, “Ski troop attack”, “The lost woman on earth”, “Little shop of horrors”, “The fall of the house Usher”, “The pit and the pendulum”, “The primature burial”, “The intruder”, “Tales of terror”, “The young racers”, “The Terror” e “The Raven”.
Roger Corman tornou-se conhecido e admirado sobretudo a partir de 1960, altura em que, como vimos, resolveu adaptar ao cinema um ciclo de obras de Edgar Allan Poe. Entregando o trabalho da adaptação ao argumentista Richard Matheson, que Iho havia sugerido, Corman rodou em três anos, cinco películas baseavas em histórias desse escritor (em 1960, “A Queda da Casa Usher”; em 1961, “O Fosso e o Pêndulo”, “The prematura burial”, “A Maldita, o Gato e o Morte” e 1962, “The Raven”.
Na realização destas obras, importantíssimas numa futura história do fantástico no cinema, Corman conseguiu uma reconstituição felicíssima da ambiência fantasmagórica, característica de Poe, desse “universo necrófilo”, perfeitamente captado das obras literárias, que conferem a estas películas um lugar destacado, no que poderemos chamar, a tradição aristocrática, de fundo literário, do filme de terror.
Galeria de monstros psicológicos, de heróis dementes, de homens atacados pela loucura, de seres em cujo inconsciente se revelam os mais completas e profundas obsessões, eis o que se poderá generalizar, através duma visão rápida do ciclo dedicado a Poe. Convém aqui lembrar que Richard Matheson concebeu os argumentos mediante o estudo de Marie Bonaparte (discípula de Freud) das obras completos do desditoso escritor norte-americano. Assim compreenderemos melhor e mais facilmente aceitaremos este universo poético, é certo, mas psicologicamente doentio, patológico, atormentado pelos mais variados casos de demência, que vão desde a alucinação, ao sonambulismo, ao estado cataléptico, à hipersensibilidade, passando pelas heranças hereditárias, pela obsessão ou pelos espíritos visionários, onde o espectro da morte balança, constantemente, frente aos olhos aterrados das suas vítimas, em quem parece pesar um destino inalterável.
Em “A Queda da Casa Usher” encontramos Roderick Usher que, por herança familiar, é hipersensível, atormentado com um som mais agudo, numa luz mais forte, um odor mais penetrante. Esses sentidos haviam causado já a perdição dos seus ascendentes que degeneraram em loucos assassinos. A sombra da fatalidade, fazendo-se sentir ao longo de toda a película, predispunha os espectadores a aceitarem como única a destruição daquela casa, no interior da qual, em ambientes de requintado bom gosto, evoluíam os personagens.
É, igualmente, um caso de hereditariedade o narrado em “O Fosso e o Pêndulo” (cuja sequência final, no fosso, é digna de uma antologia do simbolismo em cinema). Aqui, o protagonista é Nicholas Medino, que em criança vê o pai matar o tio e emparedar viva a mulher, que o atraiçoara, depois de a haver flagelado, selvaticamente. Esta visão gravou-se no espírito de Nicholas que, auto-sugestionando-se, pensa igualmente ter emparedado viva a mulher. Como por fatalidade as previsões confirmam-se e acaba por se repetir a história.
Em “A Maldita, o Gato e a Morte” é a morte o elemento de ligação entre os três contos que constituem o filme. Se bem que não respeitando totalmente as intrigas engendrados pela prodigiosa imaginação de Poe, Corman capta, de modo feliz, este ambiente doentio, mórbido e fatalista do genial poeta. As três histórias são “Morella” (um caso de vingança, tendo por base a transmudação dos espíritos; “O Gato Preto” (onde Corman se compraz na descrição do emparedamento dum casal, levado o cabo por um marido atraiçoado e da sua consequente descoberta, tudo isto envolvido em momentos de espirituoso sadismo) e “O Estranho Caso do dr. Valdemar” (um problema de hipnotismo “in articulo mortis”). Dentre todas estas narrativas fantásticos, preferimos, sem dúvida “O Gato Preto” que é, estrutural e esteticamente, o melhor pedaço de cinema deste filme. “Morella”, aparte uns pequenos e dispersos apontamentos de bom efeito, não logra alcançar o nível a que Corman nos habituou já, o mesmo se podendo dizer de “O Estranho Caso do dr. Valdemar”, por demais estético para subjugar o espectador.
O mérito de Roger Corman, ao filmar as películas consagradas ao ciclo Põe, consiste na perfeita identificação conseguida com o universo do escritor, quer na ambiência escolhida (exteriores, decoração de interiores, guarda-roupa, etc.), quer na utilização frequente duma simbologia em que Poe se revelou um antecessor de Freud e da psicanálise, quer na composição de “flash–backs” ou na construção de sonhos (filmados por intermédio de lentes de uma só cor), quer ainda na escolha dos intérpretes, donde sobressai, de forma brilhante, o trabalho de Vincent Price, actor de extraordinários recursos histriónicos e vocais que conseguiu, tanto em “O Fosso e o Pêndulo” (onde, em sucessivas gradações, se vai observando a sua lenta evolução para a loucura), como em “A Queda da Casa Usher”, criações duma perfeita concepção. Neste particular, “A Maldita, o Gato e a Morte” é um filme decisivo: Vincent Price interpreta nele três figuras diferentes e em qualquer delas o seu trabalho é magnífico. Em “O Gato Preto”, encarnando num conhecido e enfático provador de vinhos, contracenando com esse, “arranca” um desempenho notável. Como afirmou Robert Benayoun, Roger Cormon, “nesta série incomparável, rende o mais bela homenagem do cinema o Edgar Poe.”
“The Intruder” foi exibido, no ano passado, no Festival Internacional de Veneza, alcançando uma inegável corrente de simpatia por parte da crítica presente. Como esta obra nos não visitou ainda, vejamos o que dela disseram:
Roger Corman: “De todos os meus filmes o que prefiro é “The Intruder”. Quando o fiz estava para financiar qualquer filme de pequeno orçamento, mas incapaz de obter um financiamento qualquer para um filme mais caro ou um assunto mais sério. Comprei os direitos do romance por duas razões: primeiramente, acreditava no tema e estava seguro de poder extrair dele um bom filme, e em segundo lugar, estava um pouco fatigado com o género de filmes que rodava e queria ensaiar qualquer coisa de fundamentalmente diferente. Quando preparava o argumento apercebi-me com surpresa que ninguém me queria financiar o filme. Todos os grandes estúdios de Hollywood me desencorajaram e finalmente decidi jogar todas as minhas economias, que me vinham dos filmes de pequeno orçamento, e adiantar eu próprio os créditos.”
“O filme foi inteiramente rodado em exteriores no Sul e em três semanas, com todos os papéis (excepto os protagonistas) interpretados por pessoas da região. Até agora os críticos americanos têm-no elogiado bastante e espero que ele anunciará para mim uma série de filmes mais significativos”.
Roberto Benayoun (crítico de “Positiv”): “The Intruder” continua fiel à linha geral do seu autor. Corman descreve o fanático Adam Cramer, vindo para sabotar a integração numa pequena cidade do Sul, como um revolucionário, um visitante de um outro mundo. Cramer, de físico sedutor, apresenta-se a todos de uma gentileza extrema, com o frase-chave: “Vamos ser amigos, não é verdade?” Depois, com o nome de Patrick Henry Society, começa a semear a dúvida nos espírito, sobe a uma tribuna e lança mensagens inflamadas, onde sugere a invasão da Américo, pelos judeus e pelos comunistas: “Quereis dirigentes negros como em Chicago? Quereis que sejam médicos negros a trazerem os vossos filhos ao mundo?” Por fim, assegura a colaboração dos elementos turbulentos da cidade, blusões negros, políticos desonestos e linchadores em potencia, constrói com todas os peças um véu de licenciosidade que poderia lançar fogo à pólvora.”
“Mas como todos os heróis de Corman, Cramer tem lacunas características que o perderão. Pueril e galanteador, brinca com o revólver diante do espelho e ensaia os seus dotes juvenis de sedução nas mulheres alheias. É um marido enganado, inimigo subestimado, que o desmascarará finalmente e voltará contra ele a cidade revoltada.”
«Corman reuniu aqui um testemunho incisivo, um retrato inquietante sobre um aspecto contemporâneo do fascismo U. S. A. e sem qualquer apaziguamento específico ao género, nem atenuando a realidade. Seria muito fácil proclamar que Corman se entrega por fim a um assunto sério. “The Intruder” para mim não fez senão confirmar o génio dum realizador cujo obra, rica e diversa, sobe o declive.”
Júlio C. Acerete (crítico de “Nuestro Cine”): “Sem dúvida, “The Intruder” não chega aonde seria necessário, o que não impede que o filme tenha sofrido pressões para a sua distribuição nos Estados Unidos. De qualquer modo, fica claro que a prolixidade criadora de Corman não significa vulgaridade, já que os seus filmes possuem um certo interesse. Mas, como acontece com muitos realizadores, pode ser que Corman tenha mais importância em filmes como os pertencentes ao seu ciclo dedicado a Poe que em obras aparentemente mais importantes, como este “The Intruder”.
LAURO ANTÓNIO, in Revista “Filme” (1963)
(1) - Da lista de programoção da Sif para 1963-64, consta ainda uma película de Roger Corman, “The Prematore Bureal”, com o título, “Enterrado Vivo”, pelo que é natural que o vejamos brevemente.
(2) - Sobre Roger Corman, chamo a atenção dos leitores para o excelente estudo de Robert Benayoun, publicado no n.º 50-51-52, da revista “Positif”, e ainda para o artigo “Presentacón de Roger Corman”, de Júlio C. Acerete, vindo a público no n-° 20 de “Nuestro Cine”.