segunda-feira, 26 de maio de 2008

NOTAS SOBRE EDGAR ALLAN POE NO CINEMA III


ROGER CORMAN E O "CICLO POE" NA REVISTA FILME (1963)

A recuperação deste texto meu, datado de 1963, e aparecido na revista “Filme”, dirigida por Luís de Pina, é uma curiosidade que não deixa de suscitar nostalgia e um irónico sorriso. Creio que foi o meu primeiro trabalho para essa revista, e motivou um dos primeiros encontros com Luís de Pina, de quem tive o privilégio de vir a ser amigo, até à sua morte permatura. Depois, nesse ano, muito poucos davam atenção a obras estreadas em cinemas populares como o Olympia, onde se lançaram em Portugal quase todos os filmes de Roger Corman. Na altura eram salas “inferiores”, onde raramente se estreavam obras de certa “dignidade” cinematográfica. Foi lá que descobri Roger Corman, foi nessa altura que o defendi com unhas e dentes, este um dos textos onde isso aconteceu. Mais tarde, tudo mudou e Corman tornou-se um “must” da “inteligência” internacional (logo da “inteligência” nacional). Ultimamente até com passagem na elitista Cinemateca Portuguesa. Mas no catálogo do Ciclo dedicado a Roger Corman não aparece uma única referência a estes textos, escritos por um crítico de 21 anos. Mas surgem muitas transcrições de textos estrangeiros, todos eles referentes a publicações posteriores a 1985. Curioso.
A recente exibição entre nós, com o curto intervalo de dois meses, de várias películas de Roger Corman – “A Queda da Caso Usher” (“The Fall of House of Usher”), “O Fosso e o Pêndulo” (“The Pit and the Pendulum”), A Maldita, o Gato e a Morte” (“Tales of Terror”) e “Armas em Fúria” (“The Gunlinger») (1), chamou a atenção do público e da crítica lisboeta para este jovem realizador que produziu já cerca de sessenta películas, tendo realizado, dentre estas, quarenta e tantas.
Roger Corman (2) nasceu em Michigan (Detroit), a 5 de Abril de 1926. Fez os estudos primários na Califórnia e frequentou a Universidade de Standford. Durante a 2ª Grande Guerra, encontramo-lo num curso preparatório para oficiais da Marinha, donde sai bacharelado em ciências marítimas. Quando a guerra terminou, Corman trabalhou como engenheiro, “durante quatro dias” (como ele próprio afirma), findos os quais se emprega na Twentieth Century Fox.
Tendo passado por quase todos os lugres que conduzem à criação cinematográfica, propriamente dita, Corman tornou-se, rapidamente, um “story analyst”, altura em que partiu para Inglaterra, a fim de apresentar uma tese na Universidade de Oxford, sobre literatura inglesa. Antes de regressar à América, viajou pela Europa, tendo-se fixado algum tempo em Paris. De volta à Califórnia dispersou colaboração literária por diversos revistas e escreveu alguns argumentos que mereceram a adaptação ao cinema.
Finalmente, em 1954, produziu um filme sobre um “script” seu (“Monster from the Ocean Floor”) e nesse mesmo ano funda uma nova empresa produtora de filmes (a American-lnternational-Píctures) cuja primeira película foi “The Fast and the Furious”, com Dorothy Malone e John Ireland.
No ano seguinte (1955) realiza o seu primeiro filme (“Five Guns West”), um “western” que teve muito bom acolhimento e lhe abriu as portas a uma carreira fecunda e promissora.
Quase nunca a abundância reflecte qualidade ou, pelo menos, honestidade de processos e de fins. Poderá, portanto, começar por pensar-se que Roger Corman, realizando uma média de sete ou oito filmes anuais (quarenta e cinco, em sete anos), alcançando mesmo os dez, nalguns anos, é o género de realizador puramente comercial, sem pretensões de qualquer espécie, a não ser as sempre deploráveis intenções de mistificar, agradando ao público, servindo-o nos seus instintos mais primários. Ora tal não parece ter sido nunca o caso de Roger Corman, de quem conhecemos apenas três das obras atrás mencionadas, mas de quem colhemos excelentes referências de probidade profissional e cujas duas últimos obras conhecidas – “Young Racers” e “The Intruder” - reflectem preocupações de ordem social, bem definidas.
O caminho percorrido por este jovem - o inverso do de um Martin Ritt, de um Sidney Lumet ou de um Delbert Mann, que começaram as suas carreiras com obras que se recusavam moldar ao esquema comercial da máquina de Hollywood - parece igualmente assegurar um interessante futuro onde serão possíveis películas de grande qualidade.
É interessante referir o tipo de produção que Corman adoptou e que revela, apesar de ser genuinamente americano, uma certa originalidade de processos. Para conseguir um ritmo de produção que lhe permitisse alcançar a médio de sete a oito filmes por ano, Corman rodeou-se de uma equipa de colaboradores, que tem mantido, o mais que lhe é possível, de película em película, desde 1960.
Deste grupo homogéneo e seguro fazem parte o operador Floyd Crosby, o director artístico Daniel Haller, o escritor Richard Matheson (que, como veremos, foi o homem da ideia de um ciclo de adaptações cinematográficas de obras do grande escritor norte-americano Edgar Allan Poe), o músico Ronald Stein, o primeiro actor Vincent Price e mais alguns actores secundários. Uma equipa assim estruturada possibilita a realização duma película, num tempo de rodagem mínima e com um orçamento reduzido, em comparação com o que é normal e usual entre as empresas norte-americanas.
Assim, uma película para este jovem director demora, em regra, quinze dias em filmagens (Roger Corman conta que terminou uma das suas histórias em dois dias e uma noite!} e a orçamento nunca ultrapasso os 750.000 dólares, tendo até conseguido dirigir alguns com a importância de 15.000 dólares. No respeitante ao elenco, Corman chama, somente, para cada uma das suas obras, um actor de nomeada, a quem entrega o papel mais espinhoso (Boris Karloff, Peter Lorre, Ray Milland, Dorothy Malone ou Vincent Príce), trabalhando, nos restantes personagens, com actores desconhecidos.
A maioria das suas obras são de uma grande honestidade e as suas pretensões nunca vão além do que lhes é lícito pedir. Na sua filmografia encontramos filmes de “cow-boys”, musicais (de “rock-and-roll”), de ficção-cientifica, biografias de gangsters, reconstituições históricas, fantasias interplanetárias, filmes de terror, adaptastes shakespearianas e, por último, obras de pretensões sociais (como a luta anti-racista e anti-fascista em “The Intruder”). Em todos estes géneros, segundo o testemunho de críticos conhecedores de grande parte da sua filmografia, revela-se Corman um director que sabe enquadrar e se integra bem em qualquer espécie de conflito e dele extrair as necessárias ilações, que tornam as obras curiosas e interessantes.
Autor extraordinariamente fecundo, Roger Corman, ao falar dos seus filmes, afirmou: “Os filmes de pequeno orçamento que fiz no passado foram para mim uma excelente ocasião de aprender o meu ofício e creio que divertiram muita gente.”
Noutra passagem, Corman diz: “Verdadeiramente não me lembro de todos os meus filmes, mas entre os mais importantes que produzi e realizei, posso citar, por ordem: “Five guns west”, “Apache Women”, “The day the word ended”, “Swamp women”, “Thunder over Hawaii”, “Rock all night”, “The undead”, “The gunshinger”, “Not of this earth”, “Machine gun Kelly”, “l mohster”, “Bucket of blood”, “War of the satellite”, “The wasp woman”, “Ski troop attack”, “The lost woman on earth”, “Little shop of horrors”, “The fall of the house Usher”, “The pit and the pendulum”, “The primature burial”, “The intruder”, “Tales of terror”, “The young racers”, “The Terror” e “The Raven”.
Roger Corman tornou-se conhecido e admirado sobretudo a partir de 1960, altura em que, como vimos, resolveu adaptar ao cinema um ciclo de obras de Edgar Allan Poe. Entregando o trabalho da adaptação ao argumentista Richard Matheson, que Iho havia sugerido, Corman rodou em três anos, cinco películas baseavas em histórias desse escritor (em 1960, “A Queda da Casa Usher”; em 1961, “O Fosso e o Pêndulo”, “The prematura burial”, “A Maldita, o Gato e o Morte” e 1962, “The Raven”.
Na realização destas obras, importantíssimas numa futura história do fantástico no cinema, Corman conseguiu uma reconstituição felicíssima da ambiência fantasmagórica, característica de Poe, desse “universo necrófilo”, perfeitamente captado das obras literárias, que conferem a estas películas um lugar destacado, no que poderemos chamar, a tradição aristocrática, de fundo literário, do filme de terror.
Galeria de monstros psicológicos, de heróis dementes, de homens atacados pela loucura, de seres em cujo inconsciente se revelam os mais completas e profundas obsessões, eis o que se poderá generalizar, através duma visão rápida do ciclo dedicado a Poe. Convém aqui lembrar que Richard Matheson concebeu os argumentos mediante o estudo de Marie Bonaparte (discípula de Freud) das obras completos do desditoso escritor norte-americano. Assim compreenderemos melhor e mais facilmente aceitaremos este universo poético, é certo, mas psicologicamente doentio, patológico, atormentado pelos mais variados casos de demência, que vão desde a alucinação, ao sonambulismo, ao estado cataléptico, à hipersensibilidade, passando pelas heranças hereditárias, pela obsessão ou pelos espíritos visionários, onde o espectro da morte balança, constantemente, frente aos olhos aterrados das suas vítimas, em quem parece pesar um destino inalterável.
Em “A Queda da Casa Usher” encontramos Roderick Usher que, por herança familiar, é hipersensível, atormentado com um som mais agudo, numa luz mais forte, um odor mais penetrante. Esses sentidos haviam causado já a perdição dos seus ascendentes que degeneraram em loucos assassinos. A sombra da fatalidade, fazendo-se sentir ao longo de toda a película, predispunha os espectadores a aceitarem como única a destruição daquela casa, no interior da qual, em ambientes de requintado bom gosto, evoluíam os personagens.
É, igualmente, um caso de hereditariedade o narrado em “O Fosso e o Pêndulo” (cuja sequência final, no fosso, é digna de uma antologia do simbolismo em cinema). Aqui, o protagonista é Nicholas Medino, que em criança vê o pai matar o tio e emparedar viva a mulher, que o atraiçoara, depois de a haver flagelado, selvaticamente. Esta visão gravou-se no espírito de Nicholas que, auto-sugestionando-se, pensa igualmente ter emparedado viva a mulher. Como por fatalidade as previsões confirmam-se e acaba por se repetir a história.
Em “A Maldita, o Gato e a Morte” é a morte o elemento de ligação entre os três contos que constituem o filme. Se bem que não respeitando totalmente as intrigas engendrados pela prodigiosa imaginação de Poe, Corman capta, de modo feliz, este ambiente doentio, mórbido e fatalista do genial poeta. As três histórias são “Morella” (um caso de vingança, tendo por base a transmudação dos espíritos; “O Gato Preto” (onde Corman se compraz na descrição do emparedamento dum casal, levado o cabo por um marido atraiçoado e da sua consequente descoberta, tudo isto envolvido em momentos de espirituoso sadismo) e “O Estranho Caso do dr. Valdemar” (um problema de hipnotismo “in articulo mortis”). Dentre todas estas narrativas fantásticos, preferimos, sem dúvida “O Gato Preto” que é, estrutural e esteticamente, o melhor pedaço de cinema deste filme. “Morella”, aparte uns pequenos e dispersos apontamentos de bom efeito, não logra alcançar o nível a que Corman nos habituou já, o mesmo se podendo dizer de “O Estranho Caso do dr. Valdemar”, por demais estético para subjugar o espectador.
O mérito de Roger Corman, ao filmar as películas consagradas ao ciclo Põe, consiste na perfeita identificação conseguida com o universo do escritor, quer na ambiência escolhida (exteriores, decoração de interiores, guarda-roupa, etc.), quer na utilização frequente duma simbologia em que Poe se revelou um antecessor de Freud e da psicanálise, quer na composição de “flash–backs” ou na construção de sonhos (filmados por intermédio de lentes de uma só cor), quer ainda na escolha dos intérpretes, donde sobressai, de forma brilhante, o trabalho de Vincent Price, actor de extraordinários recursos histriónicos e vocais que conseguiu, tanto em “O Fosso e o Pêndulo” (onde, em sucessivas gradações, se vai observando a sua lenta evolução para a loucura), como em “A Queda da Casa Usher”, criações duma perfeita concepção. Neste particular, “A Maldita, o Gato e a Morte” é um filme decisivo: Vincent Price interpreta nele três figuras diferentes e em qualquer delas o seu trabalho é magnífico. Em “O Gato Preto”, encarnando num conhecido e enfático provador de vinhos, contracenando com esse, “arranca” um desempenho notável. Como afirmou Robert Benayoun, Roger Cormon, “nesta série incomparável, rende o mais bela homenagem do cinema o Edgar Poe.”
“The Intruder” foi exibido, no ano passado, no Festival Internacional de Veneza, alcançando uma inegável corrente de simpatia por parte da crítica presente. Como esta obra nos não visitou ainda, vejamos o que dela disseram:
Roger Corman: “De todos os meus filmes o que prefiro é “The Intruder”. Quando o fiz estava para financiar qualquer filme de pequeno orçamento, mas incapaz de obter um financiamento qualquer para um filme mais caro ou um assunto mais sério. Comprei os direitos do romance por duas razões: primeiramente, acreditava no tema e estava seguro de poder extrair dele um bom filme, e em segundo lugar, estava um pouco fatigado com o género de filmes que rodava e queria ensaiar qualquer coisa de fundamentalmente diferente. Quando preparava o argumento apercebi-me com surpresa que ninguém me queria financiar o filme. Todos os grandes estúdios de Hollywood me desencorajaram e finalmente decidi jogar todas as minhas economias, que me vinham dos filmes de pequeno orçamento, e adiantar eu próprio os créditos.”
“O filme foi inteiramente rodado em exteriores no Sul e em três semanas, com todos os papéis (excepto os protagonistas) interpretados por pessoas da região. Até agora os críticos americanos têm-no elogiado bastante e espero que ele anunciará para mim uma série de filmes mais significativos”.
Roberto Benayoun (crítico de “Positiv”): “The Intruder” continua fiel à linha geral do seu autor. Corman descreve o fanático Adam Cramer, vindo para sabotar a integração numa pequena cidade do Sul, como um revolucionário, um visitante de um outro mundo. Cramer, de físico sedutor, apresenta-se a todos de uma gentileza extrema, com o frase-chave: “Vamos ser amigos, não é verdade?” Depois, com o nome de Patrick Henry Society, começa a semear a dúvida nos espírito, sobe a uma tribuna e lança mensagens inflamadas, onde sugere a invasão da Américo, pelos judeus e pelos comunistas: “Quereis dirigentes negros como em Chicago? Quereis que sejam médicos negros a trazerem os vossos filhos ao mundo?” Por fim, assegura a colaboração dos elementos turbulentos da cidade, blusões negros, políticos desonestos e linchadores em potencia, constrói com todas os peças um véu de licenciosidade que poderia lançar fogo à pólvora.”
“Mas como todos os heróis de Corman, Cramer tem lacunas características que o perderão. Pueril e galanteador, brinca com o revólver diante do espelho e ensaia os seus dotes juvenis de sedução nas mulheres alheias. É um marido enganado, inimigo subestimado, que o desmascarará finalmente e voltará contra ele a cidade revoltada.”
«Corman reuniu aqui um testemunho incisivo, um retrato inquietante sobre um aspecto contemporâneo do fascismo U. S. A. e sem qualquer apaziguamento específico ao género, nem atenuando a realidade. Seria muito fácil proclamar que Corman se entrega por fim a um assunto sério. “The Intruder” para mim não fez senão confirmar o génio dum realizador cujo obra, rica e diversa, sobe o declive.”
Júlio C. Acerete (crítico de “Nuestro Cine”): “Sem dúvida, “The Intruder” não chega aonde seria necessário, o que não impede que o filme tenha sofrido pressões para a sua distribuição nos Estados Unidos. De qualquer modo, fica claro que a prolixidade criadora de Corman não significa vulgaridade, já que os seus filmes possuem um certo interesse. Mas, como acontece com muitos realizadores, pode ser que Corman tenha mais importância em filmes como os pertencentes ao seu ciclo dedicado a Poe que em obras aparentemente mais importantes, como este “The Intruder”.
LAURO ANTÓNIO, in Revista “Filme” (1963)
(1) - Da lista de programoção da Sif para 1963-64, consta ainda uma película de Roger Corman, “The Prematore Bureal”, com o título, “Enterrado Vivo”, pelo que é natural que o vejamos brevemente.
(2) - Sobre Roger Corman, chamo a atenção dos leitores para o excelente estudo de Robert Benayoun, publicado no n.º 50-51-52, da revista “Positif”, e ainda para o artigo “Presentacón de Roger Corman”, de Júlio C. Acerete, vindo a público no n-° 20 de “Nuestro Cine”.

NOTAS SOBRE EDGAR ALLAN POE NO CINEMA I
Edgar Allan Põe, a Vida

Em Janeiro do próximo ano comemoram-se dois séculos sobre o nascimento de Edgar Allan Poe, certamente um dos vultos maiores da literatura norte americana e um dos homens que mais influência exerceu sobre o imaginário (não só a literatura, mas também o cinema, o teatro, a música, as artes plásticas…) dos séculos XIX e XX.
Nascido em Boston, nos Estados Unidos da América, a 19 de Janeiro de 1809 e falecido a 7 de Outubro de 1849, em Baltimore, foi escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor, cultivando (ou mesmo inventando) géneros como o policial, a ficção científica, o terror, o horror, o fantástico… Na verdade, ao lado de Jules Verne, ele é um dos precursores da literatura de ficção científica e fantástica modernas. Algumas das suas novelas, e lembramos “The Murders in the Rue Morgue” (Os Crimes da Rua Morgue), “The Purloined Letter” (A Carta Roubada) ou “The Mystery of Marie Roget” (O Mistério de Maria Roget), figuram entre as primeiras obras reconhecidas como policiais. Foi ainda o autêntico iniciador de uma moderna literatura norte-americana. Todos lhe devem muito.
Os pais de Edgar Allan Poe provinham de famílias irlandesas e escocesas. Era filho de um actor, David Poe Jr., que abandonou a família em 1810, e de uma actriz, Elizabeth Arnold Hopkins Poe, que morreu de tuberculose em 1811. Órfão aos dois anos de idade, Poe saltou para o colo de Francis Allan, que ao que tudo indica o idolatrava, e do marido John Allan, mercador de tabaco de Richmond, comerciante bem sucedido na vida que, todavia, nunca mostrou particular afeição pelo jovem. Nunca o adoptou legalmente, apesar de Edgar usar o sobrenome Allan. Viajaram até Londres, onde frequentou a escola de Misses Duborg, e a Manor School, em Stoke Newington, tendo depois a família regressado a Richmond em 1820. Em 1826, cursou durante um ano a Universidade da Virgínia, sendo expulso mercê do seu estilo aventureiro e boémio. Noitadas, jogo, mulheres, e álcool, a que tudo indica ela ultra susceptível: o que seria uma dose inofensiva para a maioria, nele revelava-se de efeito fulminante. Por tudo isto, e muitas dívidas ao jogo, desentende-se com o padrasto, e alista-se nas forças armadas, sob o nome Edgar A. Perry, em 1827. Nesse ano, Poe publicou o seu primeiro livro, “Tamerlane and Other Poems”. Depois de dois anos de serviço militar, foi dispensado. Em 1829, a madrasta morre, ele publicou o seu segundo livro, “Al Aaraf”, e reconciliou-se com o seu padrasto, que o auxilia a entrar para a Academia Militar de West Point. Desobediente e rebelde, acaba de novo expulso, em 1831. Foi a gota que transbordou e o padrasto repudiou-o definitivamente. Morreria em 1834, sem o considerar no seu testamento.
Edgar Allan Poe mudou-se, para Baltimore, para casa de uma sua tia viúva, Maria Clemm, e da filha, Virgínia Clemm. Durante esta época, Poe escreveu muita ficção que o ajudou a sobreviver. Em finais de 1835, tornou-se editor do jornal “Sothern Literary Messenger”, em Richmond, lugar que ocupou até 1837. Entretanto, casa, em segredo, em 1836, com a sua prima Virgínia, que contava na altura apenas treze anos.
Em 1837, Poe vai para Nova Iorque, onde passaria quinze meses aparentemente improdutivos, antes de se mudar para Filadélfia, e pouco depois publicar “The Narrative of Arthur Gordon Pym”. No verão de 1839, é editor assistente da “Burton's Gentleman's Magazine”, onde publicou um grande número de artigos, histórias e críticas. Nesse mesmo ano, foi publicada, em dois volumes, a sua colecção “Tales of the Grotesque and Arabesque” (traduzida para francês por Baudelaire como "Histoires Extraordinaires" e para português como Histórias Extraodinárias), que, apesar do fracasso de vendas, se torna rapidamente uma referência literatura norte-americana.
Pouco depois, Virgínia Clemm descobre que sofre de tuberculose, e o desenlace é rápido. A doença e a morte da mulher levam Poe ao consumo excessivo de álcool e, algum tempo depois, este deixou a “Burton's Gentleman's Magazine” para procurar um novo emprego. Regressa a Nova Iorque, onde trabalhou brevemente no “Evening Mirror”, antes de se tornar editor do “Brodway Journal”. No início de 1845, foi publicado, no jornal “Evening Mirror”, o seu popular poema “The Raven” ("O Corvo"). Em 1846, o “Brodway Journal” faliu, e Poe mudou-se para uma casa no Bronx, hoje conhecida como “Poe Cottage”, casa museu aberta ao público, onde Virgínia viria a morrer no ano seguinte. Cada vez mais instável, Poe tenta seduzir a poeta Sarah Helen Whitman, noivado que acabaria por falhar, alegadamente em virtude do comportamento errático e alcoólico de Poe, mas provavelmente também devido à intromissão da mãe da noiva. Nesta época, segundo relatos próprios, Poe tenta o suicídio, encharcando-se em láudano. Acaba por regressar a Richmond, onde retoma a relação com uma paixão de infância, Sarah Elmira Royster, nessa altura viúva.
A 3 de Outubro de 1849, Poe foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, em estado de “delirium tremens”. É levado para o Washington College Hospital, onde veio a morrer quatro dias depois. Nos derradeiros dias nunca conseguiu estabelecer um discurso coerente, de modo a explicar como tinha chegado à situação na qual foi encontrado. As suas últimas palavras teriam sido, de acordo com determinadas fontes, “It's all over now: write Eddy is no more” (“Está tudo acabado: escrevam Eddy já não existe”). De acordo com outras fontes, as últimas palavras teriam sido “Lord, help my poor soul" (Senhor, ajuda a minha pobre alma!”). Se a vida de Edgar Allan Põe nunca foi linear e clara, a sua morte transformá-lo-á num mito, tal a invulgar dificuldade em ser esclarecida. As causas nunca foram apuradas, sendo vulgar, atribui-la a embriaguez comatosa. Mas surgem outras explicações ao longo dos anos, como diabetes, sífilis, raiva, e doenças cerebrais não especificadas.
Todo este universo de extrema lucidez e/ou profunda loucura acaba por ser usado/aproveitado/ transfigurado de forma brilhante e genial pelo autor na escrita da sua obra literária, muito mais propensa a um terror psicológico, à criação de uma ambiência fantástica, do que comprazer-se na descrição de actos de terror gratuito. A loucura e a doença dos seus protagonistas (todas as suas obras se mostram, não diremos autobiográficas, mas assumidamente pessoais, porque escritas na primeira pessoa) leva-os a actos estranhos, delírios, pesadelos, odientos crimes.

NOTAS SOBRE EDGAR ALLAN POE NO CINEMA II
A vida de Edgar Allan Poe no cinema
Sylvester Stallone realiza, Viggo Mortensen interpreta

Para assinalar o duplo centenário do nascimento de Edgar Allan Poe vai ver a sua vida adaptada ao cinema. O filme anunciado será dirigido por Sylvester Stallone (“Rocky Balboa”) e os rumores apontavam Robert Downey Jr para o papel do escritor, mas de acordo com novas informações, Põe poderá vir a ser interpretado pelo actor nova-iorquino Viggo Mortensen (“O Senhor dos Anéis” e “Promessas Perigosas”).
Nada se sabe ainda oficialmente, mas a obra poderá intitular-se “Poe” e contará a vida do lendário escritor, poeta, romancista e crítico literário americano que é considerado um dos precursores da literatura de ficção científica e fantástica modernas. A história não deixará de por em relevo alguns dos seus mais famosos trabalhos e sua misteriosa morte em 1849. A má sina de Põe vai continuar, com Stallone a dirigir?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

SWEENEY TODD, 1




SWEENEY TODD:
O TERRÍVEL BARBEIRO DE FLEET STREET
Há um aspecto em “Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street” que dá que pensar desde a hora que se larga a visão do filme. Sabe-se que Tim Burton é um cineasta cerebral, que deve pensar muito bem todas as implicações dos gestos, das palavras, dos enquadramentos, dos sons que habitam as suas obras. Por que será então que Sweeney Todd (Johnny Deep) e a sua macabra parceira, a Srª Lovett (Helena Bonham Carter) habitam numa casa de dois andares, sendo que a loja do barbeiro fica nas águas furtadas, cortada do espaço exterior por enormes janelas que permitem que quem está dentro veja para fora, mas sobretudo que quem está fora espreite para o seu interior, criando-se assim, e desde logo, um espaço claustrofóbico que convida a variadas interpretações.
Sabe-se ao que vamos: Tim Burton adapta o musical da Broadway, magistralmente concebido por Stephen Sondheim e Hugh Wheeler, partindo de uma adaptação assinada por Christopher Bond de um mito popular, da literatura urbana britânica (em Portugal conhecida como “de cordel”, em Inglaterra como "penny dreadfuls"), que um tal Thomas Peckett Prest vulgarizou em dezoito fascículos, saídos em outras tantas semanas, entre 1846 e 47. A história original tem muito pouco a ver com a que corre hoje nas salas de cinema, a não ser na prática de horríveis crimes cometidos por Sweeney Todd, na solidão da sua barbearia, enviando os cadáveres das vítimas directamente para a cozinha da sua colaboradora dilecta, que transformava as febras humanas em saborosas empadas. Mas na história original não se fala do que hoje faz o slogan do filme: “nunca esquecer, nunca perdoar” (“Never Forget. Never Forgive.”). Até à versão de Christopher Bond nunca fora mencionado o facto do barbeiro exercer assim a sua profissão para se vingar de um passado de injustiça. Mas agora esse é o móbil de toda a trama.
Casado com uma bela loura e pai de uma linda menina, o jovem Benjamin Barker, barbeiro bem instalado em Londres, é subitamente preso, condenado e exilado na Austrália, numa tramóia urdida pelo despótico juiz Turpin (Alain Rickman) e o seu não mais escrupuloso auxiliar e cão de mão Beadle Bamford (Timothy Spall). A pretensão de Turpin é ficar com a esposa e mais tarde com a filha do casal, e delas se servir a seu belo prazer. Parte, portanto, para a Austrália um jovem Benjamin Barker que, num ápice, perde a felicidade, a esperança e a confiança nos homens e na justiça, regressa, quinze anos depois, um vingativo Sweeney Todd que, mal desce do navio e pisa terras londrinas, não descansa enquanto não executa a sua vingança até ao fim. Pelo caminho dezenas e dezenas de vítimas e milhares de suculentas empadas. Enquanto vão desaparecendo muitos homens que, em lugar de saírem da loja bem escanhoados, descem degolados por um alçapão às caves do inferno, por outro lado a freguesia do rés-do-chão vai-se multiplicando pelas redondezas, bem alimentada por “carne da sua carne”, sem que nada o faça supor.
Ao lado desta história sinistramente sangrenta, uma outra vai evoluindo paralelamente, mostrando que a pureza dos sentimentos se mantém intacta na Humanidade. Como sempre entre jovens, ardendo em fogosidade, mas colhendo os primeiros e bem dolorosos desencantos. Um jovem companheiro de Sweeney Todd, Anthony Hope (Jamie Campbell Bower), que partilhou com ele a viagem de regresso a Londres, apaixona-se pela loura Johanna (uma não muito brilhante Jayne Wisener, diga-se de passagem, o mais fraco elo deste filme memorável) que não é outra senão a crescidinha filha de Benjamin Baker, agora a contas com o assédio do velhaco lúbrico que mantém cativa a sua favorita, num jaula de ouro, idêntica àquela que a jovem olha, dependurada num canto da sua janela, aprisionando um pássaro. Ela própria o recorda: “Eu nunca tive sonhos, só pesadelos.” (I've never had dreams, only nightmares.”).
Gaiolas, quartos, jaulas, cozinhas fechadas a sete chaves, deportações, clarabóias… Cenários que se sucedem e se evocam. Um filme sobre a prisão em que todos parecemos viver, sob a ameaça de pesados e funestos tiranetes que sobrevivem na impunidade, apesar do horror das suas artimanhas. O que nos recoloca no ponto inicial desta demanda. Porquê aquelas janelas rasgadas sobre a cidade, sempre plúmbea e suja, decrépita e nauseabunda? Nas ruas medra a injustiça e a impunidade do temível Juiz e dos seus sequazes, no interior da gaiola onde a vingança e o ódio aprisionaram Sweeney Todd germina a violência mais brutal e os horrores inauditos. Venha o diabo e escolha, e se não se sabe o passado do “Juiz”, descortina-se o do barbeiro para justificar tão funesta senha assassina. Portanto justificações psicológicas que vamos encontrar para perceber a mudança de comportamento do diurno Benjamin Baker, agora nocturno Sweeney Todd. Olhos cavados, escondidos no negrume da paixão mais funesta, cabelos cortados por uma madeixa de branco terror, e nas mãos a navalha que o completa e o identifica, qual “Eduardo Mãos de Tesoura”, sem a inocência deste (ou com a inocência deste vilipendiada pelo Mal do mundo). Digamos que Sweeney Todd é o prolongamento, sob a forma de vingança, de “Edward Scissorhands”). O que nos leva a pensar se aquela gaiola, donde espreita um pássaro aprisionado na dor, apontando aos céus a sua navalha, e que nós, espectadores privilegiados, espiamos do céu (ou do alto de uma grua, para se ser mais prosaico!) a cada novo movimento da lâmina ou a cada novo pensamento do executor, não será o Íntimo de cada ser possuído pela destemperança da violência e pelo gosto mórbido de olhar o gotejar do sangue (fabulosamente descrito nesse genérico inicial que desde logo define o cenário e o pulsar desta obra). Aquela barbearia será pois o coração de um ser destruído pela sociedade que o rodeia (e que, posteriormente, ele próprio irá destruir, num movimento mimético, repetido até à saciedade). Será o inconsciente mais secreto que se revela na sua brutalidade mais terrível. Será o que dentro de cada um de nós jaz adormecido e uma injustiça feroz pode acordar e despoletar para o horror. Será o que transforma uns olhos puros nuns outros raiados de cólera.
Sem dúvida que este é um dos melhores filmes fantásticos dos últimos anos, um dos mais conseguidos de Tim Burton (que os “consegue” todos, apenas uns mais do que outros), e um dos mais inquietantes deste período particularmente negro da história da Humanidade (de que a obra se faz testemunho e manifesto). Falar do musical (ou da ópera, porque não?) é simplesmente repetir que se trata de um dos mais brilhantes trabalhos de um mestre exigente e pouco dado a concessões, Stephen Sondheim. Mas Tim Burton acrescenta-lhe um universo plástico arrebatador. A Londres vitoriana idealizada pelo italiano Dante Ferretti é impressionante no seu realismo estilizado (o que pode parecer contraditório, e não é: por vezes o mais construído pode ser o mais real). A fotografia de Dariusz Wolski é igualmente poderosa no predomínio de tons soturnos, mas de um requintado gosto (relembra as inspiradoras tartes que, ao que se julga, sabem tão bem, mas encobrem ignominias inconfessáveis). Entre os intérpretes, que são também cantores (com maior ou menor vocação, mas com igual vontade de acertar em registos muito pessoais, que conferem uma curiosidade especial), há um fabuloso Johnny Depp, uma desconcertante Helena Bonham Carter, um majestoso e pérfido Alan Rickman, um mesquinho e rasteiro Timothy Spall, um surpreendente Sacha Baron Cohen. Todos magníficos.
Tim Burton executa, com rápidos e certeiros movimentos, uma realização brilhante, uma montagem galvanizante, uma narrativa galopante de abominação e tingida de sangue, um golpe de mestre. Uma navalhada que corta a história do fantástico num ante e num depois de “Sweeney Todd”. O fantástico cinematográfico tem, felizmente, muitas navalhadas destas ao longo da história, mas é sempre agradável acrescentar mais uma.

SWEENEY TODD: O TERRÍVEL BARBEIRO DE FLEET STREET
Titulo original: Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street
Director: Tim Burton (Inglaterra, EUA, 2007); Argumento: John Logan, segundo musical de Stephen Sondheim e Hugh Wheeler, e adapatção musical de Christopher Bond; Música: Stephen Sondheim (do musical "Sweeney Todd"); Maestro: Paul Gemignani; Música adicional: Alex Heffes; Supervisor de montagem musical: Michael Higham; Orquestrador: Jonathan Tunick; Fotografia (cor): Dariusz Wolski; Montagem: Chris Lebenzon; Casting: Susie Figgis; Design de produção: Dante Ferretti; Decoração: Francesca Lo Schiavo; Guarda-roupa: Colleen Atwood; Maquilhagem: Nana Fischer, Paul Gooch, Claire Green, Ve Neill, Peter Owen, Neal Scanlan, Olivier Seyfrid, Tristan Versluis; Direcção de produção: Nikki Penny; Assistentes de realização: Katterli Frauenfelder, Toby Hefferman, Bryn Lawrence; Departamento de arte: Gary Freeman, Sally Ross, Dominic Sikking; Som: Steve Boeddeker; Efeitos especiais: Jody Eltham, Jason Leinster; Efeitos visuais: Nikki Penny, Paul Alexiou, Daniel Barrow, Graham Cristie, Paul Driver, Chas Jarrett, Drew Jones, Jamshed Soori, Gemma Thompson; Produção: John Logan, Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Richard D. Zanuck, Katterli Frauenfelder, Derek Frey, Patrick McCormick; Companhias de produção DreamWorks SKG, Film IT, Parkes/MacDonald Productions, Warner Bros. Pictures., The Zanuck Company.
Intérpretes: Johnny Depp (Sweeney Todd), Helena Bonham Carter (Mrs. Lovett), Alan Rickman (Juiz Turpin), Timothy Spall (Beadle Bamford), Sacha Baron Cohen (Signor Adolfo Pirelli), Jamie Campbell Bower (Anthony Hope), Laura Michelle Kelly (mulher), Jayne Wisener (Johanna), Ed Sanders (Toby), Gracie May, Ava May, Gabriella Freeman, Jody Halse, Aron Paramor, Lee Whitlock, Nick Haverson, Mandy Holliday, Colin Higgins, John Paton, Graham Bohea, Daniel Lusardi, Ian McLarnon, Phill Woodfine, Toby Hefferman, Charlotte Child, Kira Woolman, Helen Slaymaker, Jess Murphy, Nicholas Hewetson, Adam Roach, Marcus Cunningham, David McKail, Philip Philmar, Gemma Grey, Sue Maund, Emma Hewitt, Buck Holland, Peter Mountain, Harry Taylor, Stephen Ashfield, Jerry Judge, Norman Campbell Rees, Jonathan Williams, William Oxborrow, Tom Pleydell-Pearce, Laura Sanchez, Johnson Willis, Jon-Paul Hevey, Liza Sadovy, Jane Fowler, Gaye Brown, Anthony Head, etc.
Duração: 116 minutos; Classificação etária: M/ 16 anos; Distribuição em Portugal: Columbia TriStar Warner; Locais de filmagem: Pinewood Studios, Iver Heath, Buckinghamshire, Inglaterra; Data de estreia: 31de Janeiro de 2008 (Portugal).

SWEENEY TODD, 2




“SWEENEY TODD”

NA LITERATURA E NO TEATRO

“Sweeney Todd or The String of Pearls” aparece entre 1846 e 1847, como romance de cordel, distribuído ao longo de dezoito semanas, nas ruas de Londres. Fala da história macabra de um barbeiro de nome Sweeney Todd, que assassinava as suas vítimas à navalhada, sendo a carne das mesmas aproveitada para saborosas empadas. A tradução deste romance popular apareceu agora numa colecção de “Clássicos” da Europa América e é absolutamente excessivo classificar de “clássica” esta historieta não muito bem escrita nem sequer muito desenvolvida. Nada a ver com os grandes “clássicos” do terror gótico, do melhor policial inglês, sequer aproximar-se da melhor literatura vitoriana inglesa. De resto, “Sweeney Todd, o Terrível Barbeiro de Fleet Street” surge como sendo de autor anónimo, quando na contra capa da edição portuguesa se anuncia que o seu autor foi um tal Edward Lloyd, “o rei dos folhetins “penny dreadful”. Ora tudo indica que, no máximo, Edward Lloyd tenha sido apenas o editor.

Veja-se a referência biográfica: Edward Lloyd nasceu Thornton Heath, Surrey a 16 de Fevereiro de 1815. Ainda jovem, abriu uma loja em Shoreditch onde vendia jornais e livros, começando pouco depois a editar as suas próprias publicações, como “Pickwickian Songster” ou “Ethiopian Song Book”. Em 1842 começou lançou “Lloyd's Penny Weekly Miscellany”, e mais tarde “Lloyd's Illustrated London Newspaper”, que rivalizava com o popular “Illustrated London News”. Juntou-se ao jornalista Douglas Jerrold em 1852, e, pouco depois, a Blanchard Jerrold, o filho, criando o “Lloyd's Weekly”. Em 1876 Lloyd comprava o “Daily Chronicle” por 30,000 libras e tornou-o o primeiro diário londrino. Morreu a 8 de Abril de 1890.
Não consta que tenha escrito “Sweeney Todd”, mas poderá tê-lo publicado. O autor, no entanto, foi Thomas Peckett Prest (1810-1859), escritor de "penny dreadfuls", termo que já aqui surge pela segunda vez e que convém saber do que se trata. “Penny Dreadful” foi a designação por que ficaram conhecidas as publicações inglesas de século XIX, editadas em série, normalmente em semanas sucessivas, cada folhetim custando um “penny”, e contando uma mesma história sensacionalista, de suspense, terror ou policial que iam procurando manter o leitor interessado de episódio para episódio. Conta-se que estas revistas de papel barato e preço módico interessavam às classes trabalhadoras e aos jovens, particularmente aos rapazes (há evidência, diz a fonte donde recolhemos as informações, que as raparigas também as consumiam). A "penny dreadfuls" que tinha por título "The String of Pearls: A Romance", terá, no entanto, sido publicada pela primeira vez no “The People's Periodical”, número 7, de 21 de Novembro 21 de 1846.
Voltando a Thomas Peckett Prest, este não é nome a desprezar. É conhecido por uma obra que dizem estar na base do “Drácula”, de Bram Stocker, “Varney, the Vampire”, e por ter criado "Sweeney Todd," o diabólico barbeiro, que mais tarde Stephen Sondheim iria popularizar num musical. Mas este musical não iria beber directamente a Prest, já que o folhetim deste daria origem a um melodrama teatral em 1847, da autoria de George Dibden Pitt, que, por sua vez, estaria na base de uma peça de teatro de Christopher Bond, que serviria de base ao libreto de Hugh Wheeler, que inspirou música e letra de canções de Stephen Sondheim.
George Dibden Pitt, dramaturgo de sucesso, re-intitulou o estranho caso de Sweeney Todd: “The String of Pearls: The Fiend of Fleet Street” (mas há quem afirme que o novo título foi logo “Sweeney Todd the Demon Barber of Fleet Street”), anuncia-o "Founded on Fact", ambienta-o no reinado de Jorge II (fim do século XVIII) e estreia a peça no dia 1 de Março de 1847, no Britannia Theatre, em Hoxton, uma sala de teatro que era carinhosamente chamada "bloodbath" por se ter especializado em melodramas sensacionalistas, com muito sangue a correr do palco para a plateia. Numa Inglaterra vitoriana, “Sweeney Todd” encaixava a matar.
Quanto à peça de 1973, da autoria do dramaturgo inglês Christopher Bond e intitulada unicamente “Sweeney Todd”, merece um comentário extra, pois foi nela que pela primeira vez Sweeney Todd era um pseudónimo para um barbeiro de nome Benjamin Barker que, pela primeira vez também, não executava os seus clientes por pura maldade, mas por vingança, pois tinha sido injustamente condenado a quinze anos de degredo na Austrália, por crimes que não cometera. Afastado da mulher e da filha, Benjamin Barker não pensa em mais nada senão na vingança, sobretudo no momento em que terá à sua mercê a garganta do juiz que o enviou para tão longo e pesado exílio. A personagem ganha uma nova complexidade psicológica e o “mito urbano” actualiza-se. Não esquecer que 1973 vem pouco depois da explosão justicialista de 1968.
Toda a genealogia literária de “Sweeny Todd” fica assim explicada? Nem por isso. Muito fica na sombra. Foi Sweeney Todd uma invenção de inspirados escritores ingleses de textos góticos? No século XIV em França já se falava de um temível barbeiro que golpeava com mão de mestre os pescoços dos seus clientes e envia a carne dos cadáveres para enchido de iguarias sob a forma de empadas. Diz um texto de Vladimiro Nunes (semanário “Sol”, 2.2.2008) que “nessa época as mães francesas cantavam aos filhos indisciplinados uma balada que descrevia os crimes macabros do inquilino do número 24 da Rue des Marmouzets, em Paris. Quase 400 anos depois, em 1825, a revista “The Tell-Tall Magazine” publicou uma história em tudo semelhante, alegadamente recolhida nos arquivos da Polícia Francesa.”
Deixando de lado a propriedade pedagógica das mães francesas, assalta-nos a dúvida: terá existido em França ou Inglaterra, na Rue des Marmouzets (ou terá sido na Rue de la Harpe, como a Wikipedia assinala?) ou em Fleet Street, um “serial killer” barbeiro que não deixaria tranquilos os seus estimados clientes no acto de aplanar a barba e/ou o cabelo, preferindo-lhe a remoção integral do pescoço? No mesmo artigo do semanário “Sol” afirma-se que, numa obra de 1993, “o historiador de crimes Peter Haining defende que Todd matou mesmo 160 pessoas ao longo de 17anos e que acabou enforcado em 1802, aos 45 anos.” Peter Haining escreveu mesmo duas obras sobre a personagem: “The Mystery and Horrible Murders of Sweeney Todd, The Demon Barber of Fleet Street”. Ed. F. Muller (1979), e “Sweeney Todd: The Real Story of the Demon Barber of Fleet Street”, ed. Boxtree. BBC Press Office (1993). Outras obras a ter em conta serão as de Robert L. Mack, “Sweeney Todd”, Ed. Oxford University Press (2007) ou “The Wonderful and Surprising History of Sweeney Todd”, Ed. Continuum International Publishing Group (2008).
Voltando ao teatro, diga-se que Portugal (melhor dizendo, Lisboa) teve direito a duas versões deste musical, ambas da responsabilidade de João Lourenço, encenação, e João Paulo Santos, condução de orquestra. “Sweeney Todd, o Terrível Barbeiro de Fleet Street” teve uma primeira montagem no Teatro Nacional de S. Maria II, em 1997, com Jorge Vaz de Carvalho como Sweeney Todd e Helena Afonso como Mrs. Lovett, além de Pedro Cheves, Helena Vieira, António Wagner Diniz, Carlos Guilherme, Anãs Ferraz, Henrique Feist, Luís Castanheira, Roberto Candeias, etc. Magnifica versão, diga-se, vi e posso comprovar. Uma das grandes noites de teatro em Portugal.


A segunda versão nacional apareceu em finais de 2007, no Teatro Aberto, interpretada desta feita por Mário Redondo, na personagem de Sweeney Todd, e Ana Ester Neves, na de Mrs. Lovett. Infelizmente não vi, mas calculo que tenha tido qualidade idêntica à anterior. Não seria de reprisar, agora que surgiu o filme, e muitos gostriam certamente de comparar?
Para mais informação sobre o musical, as diferentes representações e a obra de Shondeim, veja o site
www.sondheimguide.com

SWEENEY TODD, 3

"SWEENEY TODD":
CARTAZES À ALTURA DO FILME








segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

EM HOMENAGEM






Em jeito de homenagem e de declaração de principios